Inventário da Manhã

Há uma xícara na prateleira

que não combina com as outras,

asa gasta, esmalte em silêncio,

sobrevivente de um serviço que já não existe.

 

Guardo nela o café de todo dia

como quem guarda um endereço antigo:

não porque precise do caminho,

mas porque o caminho ainda respira.

 

A casa inteira aprendeu esse hábito

de transformar restos em relicário,

a cadeira que range no lugar certo,

a luz que entra sempre pela mesma fresta,

o relógio que atrasa e ninguém conserta

porque seu erro já virou família.

 

Não sou homem de grandes naufrágios.

Sou feito destes pequenos museus:

um pires rachado, uma colher torta,

o gesto repetido de segurar

o calor entre as mãos antes do mundo começar a exigir pressa.

 

Talvez seja isto envelhecer,

não perder as coisas,

mas aprender o nome exato

de cada uma que insiste em ficar.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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