Há uma xícara na prateleira
que não combina com as outras,
asa gasta, esmalte em silêncio,
sobrevivente de um serviço que já não existe.
Guardo nela o café de todo dia
como quem guarda um endereço antigo:
não porque precise do caminho,
mas porque o caminho ainda respira.
A casa inteira aprendeu esse hábito
de transformar restos em relicário,
a cadeira que range no lugar certo,
a luz que entra sempre pela mesma fresta,
o relógio que atrasa e ninguém conserta
porque seu erro já virou família.
Não sou homem de grandes naufrágios.
Sou feito destes pequenos museus:
um pires rachado, uma colher torta,
o gesto repetido de segurar
o calor entre as mãos antes do mundo começar a exigir pressa.
Talvez seja isto envelhecer,
não perder as coisas,
mas aprender o nome exato
de cada uma que insiste em ficar.
Comentários
Maravilhoso texto!!!! Parabéns.
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