Há um cheiro de café frio que insiste na cozinha

mesmo depois que a xícara foi lavada três vezes.

Talvez a saudade seja isso: um resíduo

que a água não alcança, um sabor

que mora no material da louça

e não no líquido que passou por ela.

 

Eu guardo a cadeira do lado errado da mesa,

a que ninguém senta, mas que ninguém move,

porque mover seria admitir

que o lugar não espera mais ninguém.

 

As dobradiças da porta do quarto

ainda rangem no mesmo ponto exato

onde ela costumava empurrar com o quadril,

e eu deixei assim, sem óleo, de propósito,

porque um som pode ser tudo que resta

de um gesto que o tempo já roubou do corpo.

 

Há uma carta na geladeira, presa por um ímã de peixe,

a tinta desbotando devagar, como se a ausência

também tivesse ritmo de maré.

Leio-a sem precisar ler:

já sei de cor o que nunca mais será dito de novo,

e talvez essa seja a definição mais honesta.

Não é a falta da voz,

é a certeza de que aquela frase

não terá continuação.

 

Quanto mais os dias avançam,

mais a saudade pesa,

como se a distância tivesse aprendido

o ofício da gravidade.

 

As coisas pequenas, o cabo da colher, o chinelo torto,

a mancha de vinho que nunca saiu do tapete,

carregam mais massa do que os grandes retratos na parede,

porque retrato é pose,

e mancha é vida acontecendo sem aviso.

 

Eu já não choro nas datas certas.

Choro nas erradas, nas banais,

numa terça qualquer, no meio do trânsito,

quando uma música toca só o refrão

e o resto do corpo lembra a estrofe inteira.

 

Talvez a saudade não seja dor.

Talvez seja arquivo:

o jeito que a matéria tem

de recusar o esquecimento total,

de insistir em ocupar espaço

mesmo depois que o nome

já não responde mais quando é chamado.

 

E é por isso que não jogo fora a xícara,

nem a cadeira, nem o ímã de peixe na geladeira,

porque enquanto a casa guardar essas ruínas pequenas,

ainda existe um lugar no mundo

onde ela não terminou de acontecer.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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