Há um cheiro de café frio que insiste na cozinha
mesmo depois que a xícara foi lavada três vezes.
Talvez a saudade seja isso: um resíduo
que a água não alcança, um sabor
que mora no material da louça
e não no líquido que passou por ela.
Eu guardo a cadeira do lado errado da mesa,
a que ninguém senta, mas que ninguém move,
porque mover seria admitir
que o lugar não espera mais ninguém.
As dobradiças da porta do quarto
ainda rangem no mesmo ponto exato
onde ela costumava empurrar com o quadril,
e eu deixei assim, sem óleo, de propósito,
porque um som pode ser tudo que resta
de um gesto que o tempo já roubou do corpo.
Há uma carta na geladeira, presa por um ímã de peixe,
a tinta desbotando devagar, como se a ausência
também tivesse ritmo de maré.
Leio-a sem precisar ler:
já sei de cor o que nunca mais será dito de novo,
e talvez essa seja a definição mais honesta.
Não é a falta da voz,
é a certeza de que aquela frase
não terá continuação.
Quanto mais os dias avançam,
mais a saudade pesa,
como se a distância tivesse aprendido
o ofício da gravidade.
As coisas pequenas, o cabo da colher, o chinelo torto,
a mancha de vinho que nunca saiu do tapete,
carregam mais massa do que os grandes retratos na parede,
porque retrato é pose,
e mancha é vida acontecendo sem aviso.
Eu já não choro nas datas certas.
Choro nas erradas, nas banais,
numa terça qualquer, no meio do trânsito,
quando uma música toca só o refrão
e o resto do corpo lembra a estrofe inteira.
Talvez a saudade não seja dor.
Talvez seja arquivo:
o jeito que a matéria tem
de recusar o esquecimento total,
de insistir em ocupar espaço
mesmo depois que o nome
já não responde mais quando é chamado.
E é por isso que não jogo fora a xícara,
nem a cadeira, nem o ímã de peixe na geladeira,
porque enquanto a casa guardar essas ruínas pequenas,
ainda existe um lugar no mundo
onde ela não terminou de acontecer.
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