Inventário do que falta
Há em mim um quarto fechado
que nem eu tenho a chave.
Bato à própria porta, devagar,
e escuto do outro lado um som de espera
que também sou eu.
Sinto demais. É minha herança e minha culpa.
O mundo passa em trem, apressado, prático,
e eu fico na plataforma catalogando
a poeira que ele deixa,
como se nela houvesse resposta.
Não sei o nome do que procuro.
Talvez seja apenas o nome.
Talvez seja o silêncio depois do nome,
essa coisa que arde sem fogo visível
e pesa sem ter peso nenhum.
Sou pedra que se lembra de ter sido rio,
homem que carrega o próprio fim
como quem carrega um filho no colo:
com medo, com ternura,
sem saber ainda o que fará dele.
A melancolia não é doença. É lucidez
que ninguém pediu, mas que chegou
e ficou morando na sala,
bebendo meu café,
lendo os jornais que eu não tenho coragem de ler.
Busco. Não encontro.
Talvez buscar seja o encontro possível,
o único endereço certo
neste mapa rasgado que sou.
Comentários
Caro poeta Kleber
Um portentoso poema com versos muito bem elaborados.
"Busco. Não encontro.
Talvez buscar seja o encontro possível,
o único endereço certo
neste mapa rasgado que sou."
Parabéns!
Abraços
Uauuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, que lindo!!
Parabéns, Kleber!
Meu abraço
Há elogios que não pousam apenas no poema; pousam também em quem o escreveu, como um pássaro que escolhe o ombro certo para descansar. Seu abraço chegou antes das palavras e tornou a caminhada mais leve. Obrigado pelo carinho e pela leitura tão generosa. Receba meu abraço de volta.