Quem me dera descobrir em qual esquina do tempo deixamos cair a parte mais humana de nós.
Não foi de uma vez.
Foi aos poucos, como uma casa que continua de pé mesmo depois de abandonar seus moradores.
Aprendemos cedo a chamar de vitória o que era apenas acúmulo.
Aplaudimos vitrines, colecionamos ausências, e esquecemos o nome das árvores que faziam sombra sobre a infância.
Há um espelho encostado na parede do mundo.
Nele, não aparece o nosso rosto.
Aparecem as máscaras que vestimos para convencer o vazio de que estamos completos.
Ainda há crianças desenhando sóis em folhas amassadas.
Ainda há velhos conversando com fotografias porque elas são as únicas que nunca interrompem.
Ainda há rios tentando lembrar o caminho que tinham antes de aprenderem o gosto do concreto.
E nós seguimos, erguendo monumentos para aquilo que não nos abraça.
Às vezes penso que o futuro não chegou atrasado.
Foi apenas embora quando percebeu que ninguém o esperava de mãos vazias.
Se eu pudesse pedir apenas uma única graça,
não pediria riqueza, nem respostas, nem eternidade.
Pediria a coragem de olhar outra vez para o rosto de alguém como quem encontra uma terra desconhecida e decide não conquistá-la, mas pertencer a ela.
Talvez então o mundo deixasse de parecer uma ferida tentando se convencer de que nasceu cicatriz.
E talvez eu finalmente entendesse essa saudade estranha que mora em mim
não daquilo que perdi,
mas daquilo que a humanidade ainda pode ser.
Comentários
Notável inspiração, Kleber! Parabéns
Lindoooooooooooooooooooo!!!!
Abraços
Magnifico Inventário! Saudações
Gratidão amiga 😊