Lição de Coisas
Acordo e a casa já está em ordem.
Não a ordem que eu fiz,
mas a ordem que o tempo impõe
quando ninguém mais discute.
A xícara no lugar de sempre.
O livro aberto na página que nunca li.
A cadeira inclinada
como quem espera alguém
que desistiu de chegar.
Não há poeira.
Há apenas o silêncio
se acumulando em camadas finas,
invisíveis,
que só se notam
quando a luz bate de lado
e revela
o que não deveria ser visto.
Eu ando pela casa
e cada objeto me ensina
a mesma coisa:
como continuar existindo
depois que o sentido foi embora
e deixou a porta aberta
para o frio entrar
e fazer morada.
A torneira goteja.
Não é vazamento.
É a água insistindo
em contar algo
que eu recuso ouvir.
Cada gota cai
com a precisão de um relógio
que marca horas
em que eu já não existia
e não sabia.
Olho pela janela.
A rua segue.
Os carros seguem.
As pessoas seguem.
E eu aqui,
na geografia exata
do que sobrou,
tentando entender
por que ainda respiro
num quarto onde o ar
já se decidiu
por não ser mais ar,
mas apenas
o espaço vazio
entre uma saudade
e outra.
Não há tragédia.
Há apenas esta mesa,
esta toalha,
este copo meio cheio
ou meio vazio,
depende do dia,
e hoje é um dia
em que até a metade
pesa o dobro
e a boca fica seca
de tanto engolir
o que não foi dito.
Eu poderia ter dito.
Deveria ter dito.
Mas as palavras
se transformaram em móveis.
Agora moram aqui,
pesadas,
ocupando espaço,
impedindo a passagem,
e eu desvio delas
como se desvia
de quem se amou
e agora é apenas
obstáculo no corredor.
E eu aprendi,
devagar,
como quem aprende a morrer
sem manual,
que a melancolia
não é ausência.
É presença demais.
É tudo que ficou
querendo ser o que era,
e sendo,
simplesmente,
o que é:
uma xícara fria,
uma página virada,
uma cadeira vazia
que ainda faz o barulho
de quem se levanta
e vai embora,
toda noite,
no mesmo sonho
em que eu acordo
e a casa já está em ordem.
Kleber Luís Antônio Pinheiro
Comentários
Continuo te aplaudindo, Kleber!
Abraço
Ciducha, o aplauso mais bonito é aquele que continua, porque caminha ao lado da escrita e lhe faz companhia. Suas palavras chegam com a serenidade de quem sabe ouvir os silêncios entre os versos. Obrigado por permanecer nessa travessia poética comigo. Que nunca nos faltem espanto, delicadeza e palavras para repartir. Receba meu abraço fraterno.