Mapa de um Silêncio Doméstico
Há uma geografia na casa que ninguém desenha: o corredor onde as decisões perdem a coragem, a cozinha onde as coisas simples viram cerimônia, o quarto onde o tempo dorme antes de mim e acorda depois, com relatório atrasado.
Sou o cartógrafo distraído do meu próprio ruído. Meço a distância entre o que calo e o que finjo, anoto em rodapé as vezes que quase disse, e a régua sempre falha por um milímetro exato: o suficiente para virar poema, não confissão.
A xícara na mesa tem sua própria lógica: esfria numa ordem que ignora meus horários, e nisso ela me ensina mais que os relógios: que toda urgência é, no fundo, combinada entre o objeto e o tempo, sem me consultar.
No mapa que faço, as ruas não têm nome, só coordenadas de silêncio e hesitação: a sala onde adio, o corredor onde volto, a porta que abro devagar, como quem sabe que atrás dela mora o mesmo dia de sempre, esperando, com sua paciência de pedra antiga.
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