Melancolia das Horas

Melancolia das Horas

 

O relógio na parede

não tem pressa nenhuma

de me tirar deste lugar

onde as horas engordam

e se recusam a passar.

 

Três da tarde é uma província

sem fronteira definida.

Fico nela.

Não chego às quatro

nem volto para as duas.

Apenas habito

este território parado

onde o tempo, sem coragem,

esqueceu de continuar.

 

Há dias em que o minuto

pesa como uma mala

que ninguém veio buscar

na estação.

Carrego-a de um cômodo a outro

sem saber bem por quê,

sem destino que justifique

tanto esforço tão pequeno.

 

O sol, esse funcionário antigo,

cumpre o expediente devagar,

como quem já não acredita

no valor do que produz.

E eu, aqui,

contando os segundos

que ninguém vai contabilizar,

que não constam de nenhuma folha,

de nenhum balanço,

de nenhuma vida

que se possa exibir depois.

 

As horas custam a passar

porque não têm interesse

em passar comigo.

Vão devagar com os outros também,

mas isso não me consola:

cada um carrega sozinho

o peso do seu relógio parado.

 

À noite, finalmente,

alguma coisa cede.

Não é alívio.

É apenas o dia

desistindo de mim

antes que eu desista dele.

E assim, sem vencedores,

encerramos mais uma jornada

de espera sem objeto,

de tempo sem serventia,

de vida

que se mede em horas

e se vive em intervalos.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Uauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, que lindeza de texto, Kleber!

    Aplaudo!

    Meu abraço

  • Gestores

    Congratulações Kleber. Você escreve muito bem sobre qualquer tema. O espaço-tempo é atemporal, na verdade, na minha opinião. Feliz Dia dos Pais!

  • Uma reflexão profunda sobre o tempo e essa sensação de quando as horas parecem não passar. Muito bem escrito! Parabéns poeta.👏👏👏👏

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CPP