Melancolia das Horas
O relógio na parede
não tem pressa nenhuma
de me tirar deste lugar
onde as horas engordam
e se recusam a passar.
Três da tarde é uma província
sem fronteira definida.
Fico nela.
Não chego às quatro
nem volto para as duas.
Apenas habito
este território parado
onde o tempo, sem coragem,
esqueceu de continuar.
Há dias em que o minuto
pesa como uma mala
que ninguém veio buscar
na estação.
Carrego-a de um cômodo a outro
sem saber bem por quê,
sem destino que justifique
tanto esforço tão pequeno.
O sol, esse funcionário antigo,
cumpre o expediente devagar,
como quem já não acredita
no valor do que produz.
E eu, aqui,
contando os segundos
que ninguém vai contabilizar,
que não constam de nenhuma folha,
de nenhum balanço,
de nenhuma vida
que se possa exibir depois.
As horas custam a passar
porque não têm interesse
em passar comigo.
Vão devagar com os outros também,
mas isso não me consola:
cada um carrega sozinho
o peso do seu relógio parado.
À noite, finalmente,
alguma coisa cede.
Não é alívio.
É apenas o dia
desistindo de mim
antes que eu desista dele.
E assim, sem vencedores,
encerramos mais uma jornada
de espera sem objeto,
de tempo sem serventia,
de vida
que se mede em horas
e se vive em intervalos.
Comentários
Uauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, que lindeza de texto, Kleber!
Aplaudo!
Meu abraço
Congratulações Kleber. Você escreve muito bem sobre qualquer tema. O espaço-tempo é atemporal, na verdade, na minha opinião. Feliz Dia dos Pais!
Uma reflexão profunda sobre o tempo e essa sensação de quando as horas parecem não passar. Muito bem escrito! Parabéns poeta.👏👏👏👏