Melancolia de um Coração Antigo
O coração não avisa quando envelhece.
Simplesmente deixa de bater tão rápido
quando o telefone toca.
Começa a preferir os dias de chuva,
não pela tristeza que trazem,
mas pela desculpa que dão
para não sair de casa.
Eu tenho um coração antigo.
Não antigo como relíquia,
antigo como sofá gasto no canto da sala
onde ninguém mais se senta,
mas que ainda guarda o formato
de todos que um dia nele repousaram.
Ele ainda funciona. Bem ou mal, funciona.
Às vezes, à noite, faz um barulho estranho,
como máquina que lembra
de quando era nova e útil.
Aí eu fico deitado no escuro
contando as batidas
como quem conta moedas numa algibeira:
poucas, e nenhuma de valor trocável.
Já não sei mais se sinto falta de alguém
ou se sinto falta de sentir falta.
A melancolia é assim:
um vazio que se organiza,
arruma a casa, faz a cama,
e resolve morar com a gente
sem pagar aluguel.
Meu coração antigo
aprendeu a não esperar mais.
Não porque desistiu.
Mas porque, depois de tantas estações,
sabe que nenhum trem atrasado
compensa a espera.
Ainda assim, às vezes,
quando o vento bate na janela
de um jeito particular,
ele dá um pulo,
aquele pulo bobo de cachorro velho
que ouviu passos na calçada
e achou, por um segundo,
que era o dono voltando.
Não era.
Nunca é.
E o coração, envergonhado,
volta ao seu ritmo de antes,
lento, metódico,
batendo sozinho
como relógio esquecido
numa casa onde ninguém mora mais.
Comentários
Comovente poética. Meu abraço
Espetacular!!! Parabéns, Kleber.
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