Melancolia de um Coração Antigo

 

Melancolia de um Coração Antigo

 

O coração não avisa quando envelhece.

Simplesmente deixa de bater tão rápido

quando o telefone toca.

Começa a preferir os dias de chuva,

não pela tristeza que trazem,

mas pela desculpa que dão

para não sair de casa.

 

Eu tenho um coração antigo.

Não antigo como relíquia,

antigo como sofá gasto no canto da sala

onde ninguém mais se senta,

mas que ainda guarda o formato

de todos que um dia nele repousaram.

 

Ele ainda funciona. Bem ou mal, funciona.

Às vezes, à noite, faz um barulho estranho,

como máquina que lembra

de quando era nova e útil.

Aí eu fico deitado no escuro

contando as batidas

como quem conta moedas numa algibeira:

poucas, e nenhuma de valor trocável.

 

Já não sei mais se sinto falta de alguém

ou se sinto falta de sentir falta.

A melancolia é assim:

um vazio que se organiza,

arruma a casa, faz a cama,

e resolve morar com a gente

sem pagar aluguel.

 

Meu coração antigo

aprendeu a não esperar mais.

Não porque desistiu.

Mas porque, depois de tantas estações,

sabe que nenhum trem atrasado

compensa a espera.

 

Ainda assim, às vezes,

quando o vento bate na janela

de um jeito particular,

ele dá um pulo,

aquele pulo bobo de cachorro velho

que ouviu passos na calçada

e achou, por um segundo,

que era o dono voltando.

 

Não era.

Nunca é.

E o coração, envergonhado,

volta ao seu ritmo de antes,

lento, metódico,

batendo sozinho

como relógio esquecido

numa casa onde ninguém mora mais.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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