Aprendi a dar nomes ao que dói: chamo de manhã o vazio que acorda comigo, chamo de mesa o lugar onde ninguém senta, chamo de silêncio a voz que ainda procuro entre as gavetas, entre os cheiros, entre os panos que guardam um corpo que já não é corpo, mas é ainda tudo o que toco.
Há uma gramática secreta na perda: o verbo amar não se conjuga no passado, insiste em presente, teimoso, como se o tempo não soubesse que já não há para quem dizer.
Dou nome às coisas para não me perder nelas. Chamo de herança a dor que fica, chamo de oração o que não rezo, chamo de mãe o vento que entra pela fresta e sacode as cortinas sem me avisar que é ela, que é só ela, que talvez sempre tenha sido.
E quando já não sei mais nomear, quando as palavras se recusam a servir, descubro que o luto também é linguagem: um idioma que se aprende tarde, que dói para ser falado, mas que, dito, alumia.
Comentários
Lindooooooooooooooooooo!!!
Aplausos Kleber!
Muitas verdades nessas linhas.