O café esfriou na xícara. Deixei.
Não há pressa em beber
o que já não aquece o peito.
A tarde entra pela janela
como quem não bate:
só chega e senta no canto da poltrona
onde ninguém mais senta.
Folheio o jornal de ontem.
As notícias são as mesmas,
só mudou a data.
E eu, que também sou a mesma notícia
de todos os dias,
leio meu nome entre as linhas
do anúncio de apartamentos.
Há um vazio no armário
onde guardava camisas de outras estações.
Abro.
Fecho.
Abro de novo,
como quem espera que o vazio
um dia responda.
O relógio da cozinha marca três e quarenta.
Ou quatro.
Não importa.
O tempo aqui não passa:
acumula-se no fundo da pia,
entre os pratos de ontem
e os de amanhã.
Penso em ligar para alguém.
Penso em não ligar.
Fico no meio do pensamento,
que é o lugar onde sempre fico:
no meio,
na borda,
na beira da frase que não termino.
O gato miou na porta.
Deixei entrar.
Deixei sair.
Não sei mais se ele está dentro
ou se sou eu que estou
do lado de fora de mim mesmo.
Anoitece.
Não acendo a luz.
Deixo a escuridão fazer
o que sabe fazer:
me mostrar que existo
porque ainda sinto falta
de quem não voltou,
de quem nunca chegou,
de quem sou quando ninguém olha.
O café esfriou.
Bebo assim mesmo.
Frio.
Amargo.
Meu.
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