Existe um cálculo que nenhum professor ensina:
como derivar a despedida do instante exato em que ela acontece,
como encontrar a taxa de variação entre o “até logo” e o “para sempre”.
Passei a vida achando que o adeus era um ponto, fixo, único, definitivo.
Só depois entendi:
o adeus não é ponto.
É função.
Continua sendo calculado a cada dia que se segue a ele.
No instante em que você partiu, a curva mudou de direção.
Tudo que crescia, os planos, as manhãs, o tempo comum, passou a decrescer numa velocidade que nenhuma fórmula prevê.
Tentei integrar minha dor num período pequeno,
achando que, somando os dias, encontraria uma área finita, um limite, um fim.
Mas o luto não se integra assim.
Ele diverge.
Cresce sem parar em direção a um infinito que dói de tão simples.
Há uma constante nessa equação que só quem perde reconhece:
o quanto do adeus continua presente, mesmo depois de resolvido,
como um resto que a divisão nunca consegue zerar por completo.
Calculo o limite da sua ausência quando os dias tendem ao infinito
e descubro que ele não converge para o esquecimento,
converge para uma forma nova de lembrar, mais silenciosa, mais funda,
menos dor e mais reverência.
Derivo cada gesto seu que ainda carrego:
o jeito de olhar,
a pausa antes de falar,
o riso que cortava o ar,
e encontro, em cada um, uma inclinação que aponta sempre para você,
mesmo quando a reta da minha vida segue em frente.
Tento resolver esse cálculo todos os dias:
de um lado, a variável do que ficou;
do outro, a constante do que se foi.
E aprendi, devagar,
que o adeus não tem solução exata.
Tem aproximação.
Tem série que nunca termina de somar seus termos,
mas se aproxima, cada dia mais,
de um número que já não dói tanto
quanto doía no primeiro cálculo,
no primeiro instante,
no primeiro adeus.
Comentários
Caro poeta Kleber
Um poema com versos muito bem definidos, como:
"E aprendi, devagar,
que o adeus não tem solução exata.
Tem aproximação."
Parabéns!
Abraços
Achei muito interessante a maneira como você transforma a matemática em linguagem para falar do adeus e da saudade. Uma reflexão sensível e diferente. Parabéns, Kleber, pela criatividade e pela profundidade do texto. Abraço!