O Cheiro do Armário Vazio
Abro o armário e não há nada.
Só o cheiro de madeira velha
e de ausência que se acumula
como poeira que não se limpa mais.
Havia uma camisa azul ali.
Ou era cinza? A memória
é uma mentirosa de meia-idade
que inventa cores para não chorar.
O espelho da porta me devolve
um homem que não pedi.
Pareço meu pai na manhã
em que ele parou de parecer
com qualquer coisa.
Na cozinha, a torneira goteja.
Conto as gotas: uma, duas,
trezentas e nenhuma resposta.
A água sabe algo que não conta.
Fico com inveja da água.
Lembro de alguém que disse
que a vida é curta demais.
Mentiria se dissesse que lembro
quem foi. Talvez eu mesmo,
em outra torneira, outra noite,
outro armário igualmente vazio.
O relógio na parede parou
às três e quarenta e sete.
Não o conserto. Prefiro
a hora morta. Ela me aceita
sem exigir que eu seja pontual
na minha própria solidão.
Saio na rua. O cachorro
do vizinho late. Não para mim.
Late para o mundo em geral,
como eu deveria ter feito
quando ainda tinha garganta
e alguma coisa para reclamar.
Compro pão. O padeiro sorri.
Não sei se é simpatia
ou constatação clínica
de mais um que vai morrer
mastigando. Sorrio de volta.
Somos dois profissionais
da futilidade.
Volto. O armário continua vazio.
A camisa azul, ou cinza,
continua sumida. A torneira
goteja. O relógio marca
sempre as três e quarenta e sete
de algum dia que não voltará.
Deito. O teto tem uma rachadura
que parece o mapa de um rio
que nunca naveguei. Fecho os olhos.
O cheiro da madeira vem até mim,
trazendo nada, absolutamente nada,
e é assim, neste nada tão cheio,
que finalmente durmo.
Comentários
Maravilhoso, como sempre, Kleber!
Aplausos e meu abraço
Maravilhoso!!! Não tem como não se encantar com os seus versos, Kleber. Parabéns....