O Cheiro do Armário Vazio

O Cheiro do Armário Vazio

 

Abro o armário e não há nada.

Só o cheiro de madeira velha

e de ausência que se acumula

como poeira que não se limpa mais.

 

Havia uma camisa azul ali.

Ou era cinza? A memória

é uma mentirosa de meia-idade

que inventa cores para não chorar.

 

O espelho da porta me devolve

um homem que não pedi.

Pareço meu pai na manhã

em que ele parou de parecer

com qualquer coisa.

 

Na cozinha, a torneira goteja.

Conto as gotas: uma, duas,

trezentas e nenhuma resposta.

A água sabe algo que não conta.

Fico com inveja da água.

 

Lembro de alguém que disse

que a vida é curta demais.

Mentiria se dissesse que lembro

quem foi. Talvez eu mesmo,

em outra torneira, outra noite,

outro armário igualmente vazio.

 

O relógio na parede parou

às três e quarenta e sete.

Não o conserto. Prefiro

a hora morta. Ela me aceita

sem exigir que eu seja pontual

na minha própria solidão.

 

Saio na rua. O cachorro

do vizinho late. Não para mim.

Late para o mundo em geral,

como eu deveria ter feito

quando ainda tinha garganta

e alguma coisa para reclamar.

 

Compro pão. O padeiro sorri.

Não sei se é simpatia

ou constatação clínica

de mais um que vai morrer

mastigando. Sorrio de volta.

Somos dois profissionais

da futilidade.

 

Volto. O armário continua vazio.

A camisa azul, ou cinza,

continua sumida. A torneira

goteja. O relógio marca

sempre as três e quarenta e sete

de algum dia que não voltará.

 

Deito. O teto tem uma rachadura

que parece o mapa de um rio

que nunca naveguei. Fecho os olhos.

O cheiro da madeira vem até mim,

trazendo nada, absolutamente nada,

e é assim, neste nada tão cheio,

que finalmente durmo.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Maravilhoso, como sempre, Kleber!

    Aplausos e meu abraço

  • Maravilhoso!!! Não tem como não se encantar com os seus versos, Kleber. Parabéns....

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CPP