Deixo um copo d'água
na mesa de cabeceira
todas as noites.
Não bebo.
Ou bebo um gole,
no máximo dois,
o suficiente para molhar
a boca que a solidão
deixou ressecada.
O copo é de vidro,
com uma rachadura
que só eu consigo ver.
Talvez nem seja rachadura.
Talvez seja o vidro
tentando se quebrar
de dentro para fora,
como acontece comigo,
às vezes, às três da manhã,
quando acordo sem motivo
e fico olhando para o teto
como quem espera resposta
de Deus que não acredita.
A água fica parada.
Pela manhã, está morna,
com gosto de metal
e de noite mal dormida.
Jogo fora. Lavo o copo.
Deixo outra dose
para a noite seguinte,
repetindo o ritual
de quem prepara oferenda
para deus que não vem.
Uma vez, esqueci o copo.
Dormi sem ele.
Nada aconteceu.
Não morri de sede.
Não tive pesadelo pior
do que o habitual.
Apenas acordei
com a boca mais seca,
a solidão mais nua,
a certeza de que,
se existe alguma graça
na minha vida,
ela está nesse copo
que não bebo,
nessa água que esqueço,
nessa pequena mentira
de que preciso
de algo à beira da cama
para me sentir
menos sozinho.
Ontem, uma barata
caiu dentro do copo.
Não vi. Bebi.
O gosto não era de barata.
Era de humilhação.
Deixei o copo de molho
em água sanitária,
como se pudesse limpar
não só o vidro,
mas a memória
de ter sido invadido
em minha própria noite,
em meu próprio quarto,
por algo que não convidei.
Hoje, o copo está limpo.
A água, transparente.
A rachadura, invisível.
Deito. Apago a luz.
Sinto o copo ali,
no escuro, me vigiando.
Não bebo. Fico só
ouvindo a respiração
da água que não se move,
da noite que não passa,
de mim que não durmo,
esperando, ainda,
que alguém me diga
para que serve
um copo que não se esvazia,
uma boca que não se fecha,
um coração que, apesar de tudo,
continua batendo
sem permissão.
Comentários
"esperando, ainda,
que alguém me diga
para que serve
um copo que não se esvazia,
uma boca que não se fecha,
um coração que, apesar de tudo,
continua batendo
sem permissão."
Belíssimo poema!!! Parabéns!