O Inventário da Tarde

 

Acordei. O dia já estava velho, como quem chega primeiro a um enterro e não sabe se senta à direita ou à esquerda.

Tomo o café frio. Está amargo. Digo para a xícara: Você também.

O gato olha para mim com aquela expressão de quem sabe que nenhum dos dois tem compromisso importante. Fico ofendido. Fico calado.

Pego o jornal. Leio que alguém morreu, que alguém nasceu, que alguém ganhou na loteria e ainda assim parece infeliz. Fecho o jornal. Sinto que fiz minha parte.

Às quatro da tarde o sol bate na janela com a insistência de um parente distante que veio pedir dinheiro. Deixo ele entrar. Não tenho dinheiro. Não tenho parentes.

Penso em escrever um poema. Penso em não escrever. Escrevo esta frase. Já é tarde demais para ser grande. Já é cedo demais para desistir.

Deito na cama. O teto é branco. Sinto inveja do teto. Ele, pelo menos, sabe exatamente onde termina.

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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