O relógio dele parou. Não no momento da morte. Isso seria literatura demais. Parou três dias depois, como quem precisasse de tempo para entender que não precisava mais do tempo.
A escova de dentes dele ainda está lá. Usei-a uma vez, por curiosidade. A boca ficou estranha. Não a minha, não a dele. Uma boca de ninguém, escovando a solidão com pasta de menta.
A camisa que ele usava aos domingos ainda cheira a domingo. Não a ele. A domingo. Esse cheiro de coisas que aconteciam sem que eu soubesse que estavam acontecendo pela última vez.
Guardei os óculos dele. Ele enxergava mal. Eu enxergo pior agora, mas recuso a receita. Há uma névoa necessária em não ver com nitidez o que restou sobre a mesa.
A planta que ele regava morreu. A que ele nunca regou, aquela que ele esquecia, que chamava apenas de "aquela lá", floresceu.
Não é metáfora. É apenas a botânica sendo mais inteligente do que a metáfora.
Às vezes telefono para o número dele só para ouvir a caixa postal cheia. Não deixo recado. Quem deixaria? Apenas escuto o silêncio que ele não atende e desligo antes que o silêncio desligue de mim.
Comentários
Você é demais, Kleber.
Consegue fazer de um texto, uma obra prima. Parabéns!
A planta que ele regava morreu. A que ele nunca regou, aquela que ele esquecia, que chamava apenas de "aquela lá", floresceu.
Não é metáfora. É apenas a botânica sendo mais inteligente do que a metáfora.