O Inventário dos Objetos que Sobreviveram

 

O relógio dele parou. Não no momento da morte. Isso seria literatura demais. Parou três dias depois, como quem precisasse de tempo para entender que não precisava mais do tempo.

 

A escova de dentes dele ainda está lá. Usei-a uma vez, por curiosidade. A boca ficou estranha. Não a minha, não a dele. Uma boca de ninguém, escovando a solidão com pasta de menta.

 

A camisa que ele usava aos domingos ainda cheira a domingo. Não a ele. A domingo. Esse cheiro de coisas que aconteciam sem que eu soubesse que estavam acontecendo pela última vez.

 

Guardei os óculos dele. Ele enxergava mal. Eu enxergo pior agora, mas recuso a receita. Há uma névoa necessária em não ver com nitidez o que restou sobre a mesa.

 

A planta que ele regava morreu. A que ele nunca regou, aquela que ele esquecia, que chamava apenas de "aquela lá", floresceu.

 

Não é metáfora. É apenas a botânica sendo mais inteligente do que a metáfora.

 

Às vezes telefono para o número dele só para ouvir a caixa postal cheia. Não deixo recado. Quem deixaria? Apenas escuto o silêncio que ele não atende e desligo antes que o silêncio desligue de mim.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Gestores

    Você é demais, Kleber.

    Consegue fazer de um texto, uma obra prima. Parabéns!

    A planta que ele regava morreu. A que ele nunca regou, aquela que ele esquecia, que chamava apenas de "aquela lá", floresceu.
    Não é metáfora. É apenas a botânica sendo mais inteligente do que a metáfora.

     

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