O Ofício de Ser Feliz
Era uma tarde qualquer.
O sol batia torto na parede do vizinho,
e eu, sentado na cadeira de balanço que range,
pensava que a felicidade talvez fosse isso:
um cachorro latindo longe,
o cheiro de café passando pela janela,
a certeza absurda de que o mundo continuava
mesmo sem que eu me levantasse.
Não havia bandeiras.
Nenhum poema famoso sendo escrito.
Só o silêncio da casa,
que não é silêncio de verdade,
é o barulho pequeno das coisas existindo:
o relógio na cozinha,
a água na caixa do banheiro,
o tecido da cortina se movendo
como quem respira sem pressa.
E pensei em você.
Não daquele jeito dramático dos livros,
não com suspiros nem com dor.
Pensei em você como se pensa no ar:
sem forma, mas indispensável.
Lembrei das suas mãos secando uma xícara,
do jeito que você tinha de olhar para a rua
como quem espera alguém que já chegou há muito tempo.
A vida, eu disse para o vazio da sala,
não é feita de grandes portas se abrindo.
É feita de portas que já estão abertas
e a gente que demora para perceber.
É feita de gestos que não fotografamos:
o sal sendo jogado na comida,
a toalha dobrada no mesmo canto da cama,
a voz dizendo volto já
e voltando de verdade.
Eu poderia ter sido outro homem.
Mais jovem, mais audaz,
com versos que incendeiam salões.
Mas sou este:
o que observa a poeira dançando no raio de sol,
o que guarda ingressos de cinema de 1987,
o que acredita, ainda que não diga,
que amar é um ofício silencioso,
aprendido dia após dia,
como quem aprende a amarrar os sapatos
ou a esperar o pão crescer no forno.
E nesta tarde qualquer,
enquanto o mundo girava sem aviso,
eu soube, com a clareza que só o comum nos dá,
que já fui feliz muitas vezes
sem saber o nome daquilo.
Que a beleza não mora nos picos,
mas neste chão rachado,
nesta xícara gasta pelo uso,
neste amor que não grita,
que apenas fica.
E ficar, meu Deus,
ficar é o verbo mais corajoso de todos.
Ficar quando tudo convida à fuga.
Ficar quando o tempo come as paredes.
Ficar, e ao ficar,
construir uma pátria minúscula,
do tamanho de uma mesa posta para dois,
onde a poesia não é escrita,
é servida.
Quente.
Sem pressa.
Como quem sabe
que o melhor da vida
não é o que ainda vai acontecer,
mas o que já aconteceu
e, por algum milagre,
ainda não acabou.
Comentários
Lindíssimo, Kleber. Parabéns.