Há gavetas em mim que não abro há anos, onde guardei promessas que a vida não cobrou. O pó ali dorme como quem já sabe que ninguém mais vai procurar o que sobrou.
Caminho pela casa contando os móveis como quem confere um inventário de naufrágio. Cada objeto é a prova de um tempo interrompido, cada silêncio, a medida exata do meu cansaço.
Não sinto raiva. A raiva exige fogo, e eu sou apenas cinza que esqueceu de arder. Sou o rescaldo de um incêndio antigo, a fumaça que ainda paira sem saber para onde ir.
Às vezes penso que envelhecer é isto: aprender a carregar o peso sem nomear a carga, atravessar os dias como quem atravessa um corredor cujas portas, todas, já foram fechadas.
E ainda assim sigo, não por esperança, mas porque parar também exige um gesto que já não sei mais fazer.
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