O Quarto das Coisas que Não Dissemos

O Quarto das Coisas que Não Dissemos

 

Há uma cadeira na casa que ninguém mais senta. Ela sabe o peso exato do que ficou suspenso entre duas bocas que se fecharam no meio de uma frase.

 

Os copos na pia ainda esperam o toque de mãos que não voltarão. A água esqueceu de secar. Há umidade no ar que cheira à promessa nunca dita em voz alta.

 

Eu abro a gaveta e encontro cartas que não escrevi. Elas já têm endereço, já têm selo, já têm a data de um dia que não existe.

 

O relógio parou na hora em que você disse talvez. Desde então, o talvez habita aqui como um gato que não se deixa tocar, mas come na minha mão toda noite, em segredo.

 

Às vezes, às três da manhã, eu ouço passos no corredor. Não são os teus. São os passos de tudo que não fomos caminhando sozinho pelos cômodos vazios desta casa que ainda não aprendeu a ser só minha.

 

E eu deixo a porta aberta. Não por esperança. Por educação. Porque as coisas que não dissemos merecem um lugar para voltarem e se sentarem nessa cadeira que ninguém mais senta, mas que, de vez em quando, estranhamente, ainda aquece.

 

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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