Há uma casa dentro de mim que nunca fecha as janelas. O vento ainda entra como entrava antes, trazendo o cheiro do café e das coisas que partiram sem pedir licença, sem saber dizer adeus.
Guardo o som dos passos que já não tocam o chão. Eles caminham devagar, como se temessem acordar o que repousa na poeira dos retratos, o que insiste em não aceitar o nome de lembrança.
Há tardes que envelhecem antes de alcançar a noite. Carregam sobre os ombros o peso de um nome que minha boca ainda conhece, mas que o mundo já não chama.
Então recolho a luz que a saudade abandona pelas frestas do tempo, como quem junta, com as mãos trêmulas, os cacos de um espelho onde um rosto continua vivendo.
Mesmo estilhaçado. Mesmo em silêncio.
Porque há rostos que a ausência não consegue apagar.
Talvez amar seja exatamente isso: permitir que quem partiu continue habitando os cômodos do peito, acender uma luz para quem já não sente o frio, e seguir adiante, não porque o vazio diminuiu, mas porque o amor aprendeu a iluminar o lugar onde a falta permaneceu.
Comentários
Belíssimo!!!!! Parabéns, Kleber!