O silêncio que me escreve

O silêncio que me escreve

é mais eloquente

que qualquer som ensaiado.

Minha poesia nasce onde a voz falha.

Habita o intervalo, o não-dito,

a pausa que sangra.

Trago um gosto antigo nas veias:

flores que crescem sem permissão,

canções que já não pedem ouvidos,

livros que me atravessam

como quem reconhece um nome esquecido.

Leio para adiar o colapso.

Escrevo para contê-lo.

Dentro de mim, há um tumulto sem plateia,

um excesso de mundo batendo

contra as paredes da alma.

Silencio-o com palavras não por estética,

mas por necessidade. Nunca chamei de poesia,

seria vaidade. Chamo de vazamento. De falha.

De som interno que rompeu a carne

e precisou virar forma.

Há dias em que o ruído cresce

até esmagar a linguagem.

O poema não nasce.

Ele implode,

colapsa antes do verbo, morre sem testemunha.

Sufocado por exigências, por medidas alheias,

por cobranças que desconhecem

o ritmo orgânico do sentir.

Ainda assim, no resíduo do silêncio,

algo persiste uma centelha insubmissa

que escreve mesmo quando eu já não posso.

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

R.Rocha (Isa)

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Comentários

  • Isa, não sei onde vai parar assim...cada texto que leio, que traz, parece-me mais intenso, impressionante mulher. Deus a abençoe

    Mas preciso destacar 

    "Silencio-o com palavras não por estética,

    mas por necessidade. Nunca chamei de poesia,

    seria vaidade. Chamo de vazamento. De falha."

    •  Carlos Manuel Correa da Silva 

      Você viu, meu amigo

      quanto aprendi...cresci, já não sou uma menina

      Aprendi que o silêncio tem um som incrível! 

      Gratidão e alegria receber você aqui!

      Bjinho Volte mais vezes 

  • Gestores

    Espetacular, Isa. Parabéns!

    • Obrigada, meu jardim ficou mais perfumado com tua presença.

  •  

    Olá poeta!

    Há momento em que este vocábulo

    (em que saúdo)

    simboliza o macho e a fêmea poética

    E teu poema me levou para os séculos XII e XIII

    pois, teus versos são uma tessitura trovadoresca do silêncio,

    onde a ausência se torna verbo e a falha, forma.

    Sinto que tua linguagem surge como resistência, não ornamento:

    Palavras são contenção de colapso, vazamento da alma.

    Há uma estética da necessidade, em que o não-dito pulsa mais forte que o som.

    Conforme lia, senti que teu texto revela um tumulto íntimo,

    uma centelha insubmissa que insiste em escrever,

    mesmo quando esmagada pelo peso do mundo. Achei, encantador,

    uma verdadeira alcatifa poética que, ao mesmo tempo que inspira, embeleza.

    Teu poema tem "umami" — sim, o quinto sabor... poético, e diante disso,

    O Poeta do Tempo e da Ternura te parabeniza

    Saudações fraternas e poéticas!

    ©JoaoCarreiraPoeta.

     

    • Olá, Roberto — Poeta

      há textos que nascem não do conforto, mas da urgência de permanecer inteiro
      quando o mundo insiste em nos fragmentar.

      Se há “umami” nesses versos, é porque foram cozidos lentamente
      no caldo do vivido,
      onde dor, beleza e resistência
      já não se distinguem,
      apenas sustentam.

      Agradeço com um sorriso a tua presença!

      Bjinho

  • Extraordinário, querida amiga!
    Meus sinceros parabéns e um abraço.

    • Olá Poeta 

      Feliz por sua presença 

      Obrigada! 

      Abraço aceito e retribuídos

       

  • Olá Isa! Interessante reflexão com suas influências ou inspirações, ou aquilo que fica no secreto. Espero ter a honra de algo com tua Vênus e assim partilharmos. Abraço

    • Olá poeta

      Agradeço de coração sua apreciação 

      Vamos duetar com certeza!

      Bjinho 

This reply was deleted.
CPP