Acordo e o mundo já está pronto.
Não me pediram licença para a claridade,
nem para o barulho do motor na rua curva.
A vida, vejo bem, acontece sem a minha assinatura.
O café esfria na xícara de louça.
Há sempre uma xícara esquecida na mesa
na vida de um homem
que não sabe muito bem o que fazer com as mãos.
Mãos que não forjaram o aço,
nem ergueram o edifício da esquina,
apenas seguram a manhã que escorrega.
Lembro-me de montanhas de ferro.
Hoje são apenas buracos na terra e na lembrança.
Guardo minha Itabira particular na gaveta da sala,
espremida entre velhos retratos e as contas de luz.
O minério virou pó,
e o pó virou segunda-feira.
Não há deuses na sala de jantar,
apenas o relógio marcando o tempo que não volta.
Suspiro.
Vou calçar os sapatos.
É preciso amarrar os sapatos e descer a escada
como se o destino fosse uma invenção minha,
e não esse espanto miúdo,
esse susto diário,
de estar simplesmente vivo.
Comentários
Que lindeza, Kleber!
Aplaudo de pé!
"Vou calçar os sapatos.
É preciso amarrar os sapatos e descer a escada
como se o destino fosse uma invenção minha,
e não esse espanto miúdo,
esse susto diário,
de estar simplesmente vivo."
Adorável leitura . Parabéns.