O Susto Diário

 

Acordo e o mundo já está pronto.
Não me pediram licença para a claridade,
nem para o barulho do motor na rua curva.
A vida, vejo bem, acontece sem a minha assinatura.

O café esfria na xícara de louça.
Há sempre uma xícara esquecida na mesa
na vida de um homem
que não sabe muito bem o que fazer com as mãos.
Mãos que não forjaram o aço,
nem ergueram o edifício da esquina,
apenas seguram a manhã que escorrega.

Lembro-me de montanhas de ferro.
Hoje são apenas buracos na terra e na lembrança.
Guardo minha Itabira particular na gaveta da sala,
espremida entre velhos retratos e as contas de luz.
O minério virou pó,
e o pó virou segunda-feira.

Não há deuses na sala de jantar,
apenas o relógio marcando o tempo que não volta.

Suspiro.

Vou calçar os sapatos.
É preciso amarrar os sapatos e descer a escada
como se o destino fosse uma invenção minha,
e não esse espanto miúdo,
esse susto diário,
de estar simplesmente vivo.

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Que lindeza, Kleber!

    Aplaudo de pé!

  • "Vou calçar os sapatos.
    É preciso amarrar os sapatos e descer a escada
    como se o destino fosse uma invenção minha,
    e não esse espanto miúdo,
    esse susto diário,
    de estar simplesmente vivo."

    Adorável leitura . Parabéns.

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