Há estradas que só existem porque alguém as andou antes,
e agora eu piso sozinho onde os passos eram dois,
carregando um nome que o vento ainda repete
baixinho, como quem não quer acordar o que dorme.
Não sei se a saudade é memória ou profecia,
às vezes penso que é o futuro que não veio,
um caminho que se abria à minha frente
e que, de repente, ficou sendo só passado.
Aprendi que o tempo não cura, apenas costura
com linha fina os pedaços que a perda separou,
e o tecido, mesmo remendado, ainda serve
para cobrir as noites frias de quem ficou.
Ando devagar pelas tardes que já não têm pressa,
converso com as sombras que se sentam ao meu lado,
e descubro, sem espanto, que amar um ausente
é continuar fazendo o caminho que os dois começaram,
sozinho agora, mas nunca mesmo sozinho,
porque quem parte deixa o passo ensinado no chão,
e há uma luz cansada, quase dourada, quase triste,
que ilumina só o suficiente para eu seguir andando.
Comentários
Espetacular!!!!! Parabéns, Kleber!