Onde Moram os que Partiram
Não há morte. Há apenas
uma troca de endereço
que o silêncio celebra
com a chave ainda na fechadura.
Você foi embora
e deixou o copo meio cheio
sobre a mesa.
Agora ele pesa o dobro,
porque contém, além da água,
toda a ausência
que você não bebeu.
Eu aprendi, com o tempo,
a não tocar nas coisas
como quem toca em objetos.
Toco como quem bate à porta
de uma casa
onde alguém ainda pode responder.
A memória não é saudade.
Saudade é o nome pequeno
que damos à habitação
do que não cabe mais
no peito.
A memória é outra coisa:
é eu acender a luz
do corredor às três da manhã,
sabendo que ninguém vai passar,
e acender mesmo assim,
porque a escuridão
não deve pensar
que venceu.
Às vezes,
no meio de uma frase
que você nunca ouviu,
sinto o peso exato
da sua mão no meu ombro.
Não é fantasia.
É física.
É a lei mais antiga:
quem ama de verdade
não some.
Só muda de estado.
Como a água que evapora
e continua sendo
a umidade do ar
que respiro.
O luto é um quarto escuro
onde, aos poucos,
os olhos se acostumam.
E, no escuro adaptado,
vejo que você nunca partiu.
Só se tornou
invisível da mesma forma
que o vento se torna:
não se vê,
mas move as cortinas,
derruba livros
e, às vezes,
às vezes,
fecha a porta
com delicadeza,
como quem não quer
acordar quem dorme.
Hoje, anos depois,
eu finalmente entendo:
a morte não é um roubo.
É um empréstimo
que o tempo faz
daquilo que nunca foi nosso.
E o que resta,
o que sobra de fato,
é esta habitação estranha
onde eu vivo agora:
uma casa maior,
porque tem mais silêncio,
mais cantos vazios,
mais ecos que respondem
antes mesmo
de eu perguntar.
Você não está morto.
Você se mudou
para dentro de mim.
E aqui, dentro,
a porta está sempre aberta.
A luz, sempre acesa.
E a mesa, posta
para dois,
porque eu ainda falo,
ainda rio,
ainda espero
o barulho da sua cadeira
se aproximando.
Não é loucura.
É amor
que aprendeu
a morar sozinho
sem nunca
estar só.
Comentários
Maravilhoso texto!!!! Parabéns.
Caro poeta Kleber
Um poema muito bem construído, falando do amor e da vida em toda a sua plenitude.
Lindos versos!
Parabéns!
Abraços