Só mais uma xícara de café,
como quem adia o fim
por mais alguns minutos
dentro daquilo que ainda parece em mim.
A manhã cai devagar sobre a mesa,
e o silêncio entre as mãos
já diz mais do que devia.
Há memória no vapor dessa xícara,
um amor que ainda fica
mesmo quando já sabe
que vai embora um dia.
Eu olho você
como quem tenta guardar um abrigo
antes da chuva mudar o caminho.
Teu rosto tão perto,
teu corpo tão quieto,
e essa vontade absurda
de pedir ao tempo
mais um pouco contigo.
Só mais essa demora bonita,
esse intervalo sem nome,
em que ainda posso fingir
que ninguém precisa partir.
O café esfria aos poucos,
e eu também entendo
que certas despedidas
não chegam fazendo barulho
apenas sentam,
baixam os olhos
e ficam.
Mas ainda há ternura aqui:
no jeito como teus dedos
procuram os meus sem pressa,
no modo como tua presença
ainda me aquece
mesmo à beira da ausência.
Sei que nada volta inteiro.
Que o amor, às vezes, não salva
mas marca.
E há marcas que doem,
e há marcas que viram casa.
Você foi uma dessas.
Talvez a mais funda.
Talvez a única
que até no fim
ainda me faz querer ficar.
Então não diz nada.
Só fica mais um instante,
mais essa xícara,
mais esse resto de manhã
que ainda respira entre nós.
Porque depois
o dia continua,
as portas se fecham,
e eu volto a ser alguém
tentando parecer inteiro.
Mas agora,
enquanto o café ainda fuma
e teus olhos ainda pousam nos meus,
eu só queria que o tempo tivesse piedade.
Só mais uma xícara de café,
e talvez eu aprenda
a te deixar partir
sem me perder por inteiro.
Ou talvez não.
Talvez você fique assim em mim:
no gosto,
na memória,
no silêncio depois
como aquilo que termina fora
mas continua dentro.
Devagar.
Comentários
Tocante mensagem que fala direto ao coração. Li e gostei. Abraços
O vazio também guarda presença,
um café
um amor ...Belissímo, parabéns
Maravilhoso texto, Kleber.
Kleber
As marcas nunca somem
O amor fica na memória ativa
Um lindo versar
Um abraço
Um maravilhoso poema! aplausos mil!
Gratidão 😊