A ausência tem seu próprio peso,
mais leve que a dor, mas mais funda.
Cabe inteira numa gaveta
e, no entanto, inunda.
Não chorei como se chora chuva.
Chorei como se cala um sino,
um som que ainda vibra dentro,
mesmo depois de fino.
Guardo a memória como quem guarda
uma carta nunca lida.
Sei o que diz sem abri-la.
É a forma da vida.
O luto não é precipício.
É sala pequena, vazia,
onde eu entro todo dia
e finjo companhia.
Perder alguém não é apagar.
É mudar de endereço a dor.
Ela muda de casa dentro de mim,
mas não sai do redor.
Há um silêncio depois da perda
que não é nada: é espera.
Como se a alma soubesse
que a ausência também impera.
E assim eu vivo meio presente,
meio guardado em outro lugar,
aprendendo que amar é isto:
deixar alguém sem deixar de amar.
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