é mais prático ter uma campainha, mas eu gostava da atenção que eu dava, especialmente quando alguém batia palmas na porta da frente. às vezes eu ouvia de um jeito, às vezes de outro, depende de quem e de como batia a palma das mãos. se as mãos estavam mais ressecadas ou mais sedosas. se seu humor estava de uma ou de outra maneira; e até se seu espírito estava com bom ânimo, a depender do som que fazia as palmas unindo a isso a anatomia da concha que fazia as mãos e o tempo de cada batida.
só tinha uma coisa.
esse negócio pra medir o ânimo só funcionava quase sempre com adulto. criança sempre tem bom ânimo nas palmas, apesar de qualquer porém. ou será que eu estou ouvindo de um jeito, e daqui há uns dias posso ouvir de outro?
não ter campainha e esse percurso das palmas até desvelar esse fato de instabilidade sensorial de perceber é ser, é o que me faz, de qualquer modo, ter a habilidade de sobrevivência.
por muito tempo, há mais de uma década até recentemente, tenho campainha em casa. comecei a perceber e a permitir-me sentir sons da campainha como se tivesse uma pitada de palmas batidas.
mas não quero dizer que sobrevivo de pessoas no meu cotidiano... quase não as vejo mais.
sobrevivo de instabilidades.