Posts de Fernanda R-Mesquita (20)

Perfeito sentido

 

Uma sábia pomba que o seu voo para
para na tua mão alegremente pousar
como se pousasse numa árvore rara
onde uma rara luz espera o despertar.

Orientada por um perfeito sentido
atraída pelo que ninguém vê, pousa
no ser, que ainda num mundo dividido
desconhece que nela vive... repousa
uma sábia pomba.

Momento banal, há-de alguém achar
mas é o universo a querer mostrar
a luz incansável que ao teu lado caminha.
Ainda que tristezas te toquem o coração
dentro de ti mora a pomba que se aninha
igual à que se aninhou na tua mão;
uma sábia pomba

Fernanda R-Mesquita

 

 

 

 

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Razão

 

Que talentosos somos para contaminar a razão,
mergulhá-la em águas dúbias,
em intranquilas marés que não cabem no respeito.

A incompreensível lonjura, no centro da discussão,
à sua razão agarrado, devotado à confusão
vive o abastecedor de palavras absolutas
que me arrumam no silêncio, sem que ele me conheça;
pois o que ele diz que eu penso, eu não penso.
Por isso, ele razão, e eu... silêncio. Bom senso!

Contrapor com alguém de razões empertigado
é um tremendo esforço com modesto resultado.
Ele gosta de discussão.
Bom senso; eu silêncio e ele razão.

Fernanda R-Mesquita

 

 

 

 

 

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Poderoso gigante

 

Dentro de mim há um gigante,
tão grande
e ninguém o vê!
Por vezes esconde-se,
por vezes cresce, cresce...
Tantas são as vezes que se ergue
e arrebata a angústia, destruindo-a
num gesto tão poderoso quanto ele.
Com a sua mão enorme esmaga
infinitos pesadelos.
Só pode mesmo ser um gigante,
este poderoso poder
de vencer
as poderosas pedras,
as desmedidas barreiras
que surgem das avalanches
traiçoeiras e inesperadas
da vida!
E quando eu penso
que o meu escudo protector
submergiu comigo,
emerge nesta forma de gigante
que ninguém vê,
nem por vezes eu,
mas que nunca deixou de estar
dentro de mim!

Fernanda R-Mesquita

 

Foto ( KINGSWAY MALL Edmonton Alberta- 2011 )

poema no livro ´´ A barca dos sentidos ``

 

 

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Rosa fria- I

A boca que outrora o amor apregoava
passou de um aparente belo botão de rosa
a uma agressiva e malquista rosa brava
mostrando-se manipuladora e mentirosa.

Reencarnou a velha e desconfortante teimosia
possuída por um apetite voraz por discutir
maltratando com a boca, outrora doce, agora fria
o amor que ao mundo, apregoava sentir.

Mas e do outro lado, quem existia?
Silencioso, cabisbaixo o que sentia?
Quem se deixava atingir por tanto furor?

Alguém que pensou que amar
é deixar-se atingir, é deixar-se usar
por uma rosa brava que desconhece o amor!

Fernanda R-Mesquita

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HORUS CULTULITERARTE

Chegou a primavera! Quero partilhar o excelente trabalho de Inês Nabais. Imagino o tempo necessário para divulgar o trabalho de autores. 

Clique no link para conhecer a revista dela, on-line:

https://issuu.com/edicoeshorus7/docs/hc

(foto: a ilha de Victoria. faz parte do Arquipélago Ártico Canadense e situa-se nos Territórios do Noroeste e de Nunavut. É a nona maior ilha do mundo. Foto tirada em Julho-2016.

Um bom fim de semana para todos!

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Ao imaginar que tu existes

Poema na revista Horus Cultuliterarte .

O link da Casa dos poetas e da poesia está lá, assim como o coloco em todas as antologias em que participo, ebooks e livros que edito. Bem hajam pela forma como divulgam poesia. Trago-vos no coração ainda que o tempo não sobre para vir aqui tanto quanto eu gostaria. Abraço para todos!

https://issuu.com/edicoeshorus7/docs/horus_51424726939c36

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Desculpe, não quero ser desagradável

Na revista Ponto & Vírgula- Maio-Junho
Ano 4. edição 27

Uma esbelta jovem de longos e escuros cabelos, que lhe emolduravam o rosto de pele clara e suave. Os olhos ligeiramente maquilhados; lápis e rímel preto. O casaco de malha azul, comprido e sem mangas deixava ver a curta camisa preta, a tocar o cós das calças de ganga azul, revelando a elegante cintura. Um belo rosto aliado a um estilo simples de vestir. No entanto, os movimentos caprichosos do corpo, denunciavam a convicta expressão: ´´ tudo posso, em tudo mando``, quebrando um pouco a beleza do seu próprio retrato. Virgínia entrou no café, acompanhada pelo seu pai. Alberto, de cinquenta e nove anos, bem conservados e com ar de quem usufruía de uma vida estável, pediu um café para ele e um café e um gelado para a filha. Esperou no balcão pelos respectivos pedidos e ele próprio serviu a filha, já sentada numa mesa. Quase de imediato a jovem levantou-se:

- Desculpe, pode colocar mais água no café?- perguntou ela à empregada.
A empregada sorriu e assim fez.
Uns cinco minutos depois dirigiu-se de novo ao balcão:
- Desculpe, não quero ser desagradável, mas pode deitar um pouco de café no meu gelado? Está gelado demais.
A empregada sorriu e assim fez.
- Vamos para uma mesa lá fora- disse a rapariga para o pai, sem se sentar. Voltou-se de novo para a empregada e como quem dá uma ordem e não como quem pede, disse:
- Desculpe, mas precisamos de um chapéu para uma das mesas da esplanada.
- Mas hoje está um pouco de vento. Penso que, lá fora, não está muito agradável.
- Não vê o sol que faz? Que desperdício ficar aqui dentro. Quero apanhar um pouco de sol.
Na esplanada, sentados frente a frente, o pai bebia o café e a filha falava. Apenas falava ela. Nos olhos do orgulhoso pai, viviam as histórias contadas pelo amor paternal. O epílogo de todas essas histórias era sempre o mesmo: a sua princesinha era perfeita. Depois de uns curtos dez minutos, eles entraram de novo no café.
- Desculpe, não quero ser desagradável, mas está um vento insuportável lá fora. Melhor será ir buscar o chapéu. Ah, mas antes que vá, poderia dar-me mais uma bola de gelado? Entretanto, este ficou demasiado liquido.
-Desculpe, terá que pagar mais uma colher de gelado- respondeu a empregada, engolindo o estado de cansaço, provocado pela situação.
- O quê? Que atrevimento! Então dá-me um gelado quase congelado, mas que afinal não deveria estar tão consistente assim, porque rapidamente derreteu, e atreve-se a cobrar-me mais uma colher?
A empregada, preplexa, olhou para o patrão à procura de auxílio. Poderia dar-lhe mais uma colher de gelado ou não? Com um movimento de consentimento, o patrão autorizou que a empregada servisse a cliente, exatamente como ela exigia. ´´O cliente tem sempre razão, mesmo aquele que não quer ser desagradável``, foi a frase silenciosa, trocada através do olhar, entre patrão e empregada. Esta, com um sorriso que parecia o mais natural do mundo, assumindo a culpa, desculpou-se e educadamente garantiu:
- Esta situação desagradável não voltará a acontecer.
- Não faz mal. Eu sou muito compreensiva. Está desculpada- respondeu Virgínia, sem reparar na ironia contida no pedido de desculpas.


Fernanda R. Mesquita

( Casos reais em tempos modernos )

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Partilho convosco o meu artigo na revista Ponto & Vírgula, da qual sou colaboradora.

No link seguinte pode assistir ao programa Ponto & Vírgula, sobre Ride the Wind Ranch:http://www.paixaoporribeirao.com.br/programa/ponto-e-virgula/samira-braga-no-programa-ponto-virgula-01-04-2016/

Pode visitar o site do rancho aqui:

Ride the Wind Ranch

         A duzentos e dezoito quilómetros de Edmonton, no centro-oeste de Alberta, Canadá, na confluência dos rios Clearwater e North Saskatchewan e com uma longa história que vem desde o século XVIII, fica situada a pequena cidade Rocky Mountain House. Ela serve de marco na mudança, não apenas da estrada mas de toda a paisagem que nos conduz em direção ao Ride the Wind Ranch. Funciona como um filtro, esvaziando-nos da poluição sonora e de toda a correria do dia a dia, a estrada de gravilha que rompe léguas e léguas da frondosa e extensa floresta. 
Vinte e um quilômetro depois de Rocky Mountain House,  surge a indicação; ´´Ride the Wind Ranch``. Quanta vida palpita protegida por toda aquela extensão de árvores! Do lado esquerdo os grous-canadianos convivem em paz com os bois. Do lado direito, dois coelhinhos brincam livremente. Paramos ao lado da casa. No cimo das curtas escadas de madeira, à porta de entrada, surge Kathy Rissi que acolhe-nos calorosamente. 
      Depois de dizermos olá à nossa cabine, vamos até ao alpendre do escritório do Sheriff, onde nos espera uma churrasqueira ao ar livre. Enquanto os alimentos libertam os seus aromas, alguns cervos olham-nos curiosos, e sobre as nossas cabeças as irrequietas andorinhas batem energicamente as longas asas. 

             Saboreamos o jantar enquanto o sol vai dourando as copas das árvores. Devagarinho vai deixando o céu, meio violeta, meio alaranjado. Sem pressa chega a noite. E a lua é o lampião para que as magníficas silhuetas dos cavalos, lentamente e graciosamente, se misturem nas sombras.

  Dez da noite e nós descansamos na confortável cama da cabine, onde a Internet e a televisão não ocupam espaço. Pela mão do silêncio, a quieta noite anima a nossa imaginação infantil; rimos e cochichamos histórias imaginando-nos crianças assustadas.
São dez da manhã e enquanto degustamos o pequeno almoço preparado por Kathy, as palavras fluem. Kathy explica o que os  movera, a ela e ao marido, a sair da Suíça: mais espaço, silêncio, contacto com a terra e com a vida animal. Conta-nos uma história engraçada:
``- Um verão, o nosso gado pastava nas nossas terras, do outro lado da estrada. Como o  pasto é muito grande, com algumas partes dentro da floresta, nem sempre eu os conseguia ver. A um dado momento o telefone tocou. Era um vizinho a informar-nos que vira o nosso gado a uma milha daqui. Eu e Marty selamos os cavalos, e durante meia hora, cavalgamos pela floresta pública. Um tempo depois, já na estrada de cascalho, encontramos um outro vizinho de carro que nos informou que vira os nossos animais. Quando os encontramos, eles já estavam perto de casa. Eles caminharam quase em círculo, cerca de seis milhas, através da floresta espessa. Foi comovente sentir como eles encontraram o nosso lar.´´
  Hora de dizer adeus aos gentis cavalos que nos cercam amistosamente. Faço amizade com ´´Night``. Ele segue-me e pede carícias. Kathy explica:
- Ele nasceu no nosso rancho, há oito anos. Seu pai é o cavalo preto e branco Mescalero e sua mãe é a égua preta, Dakota. Temos um livro, enviado pela própria autora, Lucia St.Clair Robson, que fala sobre os índios Comanche e há um cavalo chamado ´´Night``. O livro tem o nome do nosso rancho e está muito bem escrito.
      Entramos no carro. Um último olhar.  Kathy, a gentil anfitriã, vai ficando para trás. Imagino-a a cuidar da sua família com a paz e o amor que a ampla paisagem, que entra pelas janelas da casa, lhe oferece. Talvez na magnífica varanda lendo um livro ou simplesmente descansando, ou ainda, cavalgando livre pelos prados e florestas. Eu vou entrando numa outra sociedade, barulhenta e surda, prometendo a mim mesma que voltarei e trarei comigo a revista Ponto & Vírgula que fará parte da biblioteca do rancho, onde a escrita em língua portuguesa, esperará por outros hóspedes que gostem e saibam ler em português.
Para além do fantástico silêncio podemos caminhar, cavalgar, nadar ou andar de barco pelos lagos, apreciando toda a vida selvagem. No entanto, para além da beleza do lugar, há a essência encantadora desta família que que nos faz voltar e voltar...

Fernanda R. Mesquita
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Instante fugaz

 

E porque a hora é cansaço;
o passo é pensativo
e a estrada é lenta.
A natureza num sublime saber
dedilha nas cordas do vento
secando o suor e acalmando as veias
do homem e do animal,
que em silêncio
e de passo pensativo
pela estrada lenta
vivem
os detalhes do retorno ao lar
como quem agarra a vida
na hora do descanso...
É o instante fugaz
entre a labuta cumprida
e a que está por cumprir.

 

Fernanda R. Mesquita

 

 

 


(ilustrado por mim, pintado a acrílico)

 

 

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Mil e um, mil e um, mil e um...

Dentro de cada um de nós
há um passarinho pronto a voar.
Temos mil e um, mil e um, mil e um....
Eu ouço asas batendo alegria,
tristeza, desapontamento,
lágrimas, sorrisos, amor!
Que festa! É o hino da liberdade
no paraíso da poesia,
nas asas dos poetas que batem
mil e uma vez, mil e uma vez, mil e uma vez...

Fernanda R. Mesquita

(em tom  de  brincadeira)

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Poema sem nexo- Benji

É uma brincadeira que quis partilhar com todos; o meu gato Benji, hoje decidiu escrever e resultou no ´´Poema sem nexo``

Ousadia

Um comportamento que se escapou
num momento em que eu quis dizer:
- Eu também estou aqui!

Fernanda R. Mesquita

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A tarde ternamente preguiçosa

A tarde ternamente preguiçosa
adormece sob o manto suave do luso-fusco,
fecha os olhos e abre a alma às histórias
que a voz do anoitecer, em imagens brandas, vai contando...

E a tarde ternamente preguiçosa,
adormecida
vai ouvindo, cheirando, saboreando
a liberdade em que se funde todo o universo.

Eu sinto-me frescura verde sem idade
espalhando-me alma sem corpo
virgem leitor de um mundo que se oferece cheio de tempo.


Fernanda R. Mesquita

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Força

Sento-me muitas vezes
no colo da criança que fui;
como é bom o seu abraço,
entregar-me à sua inocência,
 reaprender a sorrir
e relembrar-me que o galho quando quebra,
torna à terra, transmuta-se em adubo
e germina árvore em flor,
com mais vida do que nunca.

Fernanda R. Mesquita

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O corvo e a tempestade

A noite ficou escura e o vento sopra torvo,
a chuva bate tão solitária na janela,
talvez fuja do agouro do corvo
que bate as negras asas atrás dela.

.

Por que chove assim, canta o corvo e sopra o vento
se nem sequer é Dezembro mas sim Agosto.
Espreito pela vidraça e vejo o vento violento
a fazer girar o corvo que brinca bem disposto.

.

Murmurei lenta alguns ais,
sem entender a negrura dos espaços celestiais,
para de seguida sorrir enternecida ao perceber,

.

que enquanto eu fiquei desorientada, aborrecida
por uma tempestade que chegou perdida
o corvo abriu as asas, quis brincar... quis viver!

.
Fernanda R. Mesquita

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Lágrimas

Gotinhas húmidas e transparentes
queimam o meu rosto cansado!
Mas não são lume!
São lágrimas fortes e quentes,
são um grito silenciado
num silencioso queixume.

São um livro fechado
tão quase depois de o abrir,
são o poema inacabado
que a meio quis partir.

E nessa lágrima transparente,
nesse silencioso queixume,
morreu o sorriso inocente
numa gotinha quente
que queima sem ser lume!


Fernanda R. Mesquita

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Vestígios

Sinto na tua camisa lavada,
neste tecido que abraço
a tua pele marcada,
do teu corpo que adormeceu
vencido pelo cansaço,
descansando sobre o meu.

.
Lanço o olhar àquela hora
em que o teu respirar se perdeu
no meu peito que agora
respira triste sem o teu.

.
E sobre este tecido que aperto
cai uma lágrima cansada
como um grito que cai certo
na tua camisa lavada!

.

Fernanda R. Mesquita

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Templo de alma

Ai! O nosso tempo esfuma-se nesta distância fria
E eu vou morrendo triste, em desalento,
restos mortais de uma flor que em melancolia
se desfaz no ar ao sabor do tempo.

Que romântico delirío, que desengano
quereres segurar o tempo, que sonho vão
quando se podem contar os dias num ano
em que eu sinto a tua mão na minha mão.

Um dia estarei velha desfiando o novelo
Do tempo que passou e não atendeu ao meu apelo.
Velhinha, sentada na porta olhando o horizonte distante,

Tentando ver-te a ti, também já velhinho, pois...
Ou será que o tempo dará tempo a nós dois
De vivermos, ainda jovens, este amor por um instante?



Fernanda R. Mesquita

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Contemplação

Na imensidade dos anos que passam tão rápido
´´readmiro`` o subtil encanto de certos detalhes
requintados e penetrantes da vida.
Cegos por atingir grandes quantidades de êxtase
presos às ideais aparências
embebemos os dias em imagens falsamente decoradas,
vazias...
Contemplação que nos cansa tão rapidamente,
tão rapidamente perde o seu encanto!
Passivos ao esplendor da vida
e ansiosos por novas faíscas de emoções,
com um poder mais sedutor,
dirigimos a atenção do nosso olhar
para outros rumos tão pouco necessários
que perpetuam desconcertantes influências,
que nos roubam o fundo da nossa alma
e nos conduzem à inferioridade do ser humano,
tornando-nos incapazes de descobrir
o caminho mais curto para a felicidade,
onde desabrocha mais pura
a verdade harmoniosa
que nos oferece felicidade na hora certa em que precisamos dela
e que nós não queremos por ser simples demais...
( Antes de contemplarmos as estrelas no céu,
deixemos que os nossos olhos vejam o que brilha ao nosso lado!)

Fernanda R. Mesquita

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CPP