Posts de Assis Silva (6)

Frutos da mentira

Mentira não é um bem,
mas pode custar caro.
Leva o crédito que se tem
deixando em desamparo.
Mentira não é um bem,
mas pode custar caro.
Frutos amargos dela advêm,
prejuízo sem reparo.
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Joaquim

 
Onde já se viu, Joaquim, viver assim:
Sem casa, sem estudo, sem documentos!
Onde já se viu, Joaquim, viver assim:
Sem sonhos, sem perspectivas, sem alentos!

Ah! Joaquim, é ruim viver assim:
Sem família, sem amigos, sem ninguém!
Ah! Joaquim, é ruim viver assim:
Sem mesa, sem cama, sem vintém!

Joaquim, por que você vive assim:
Largado, desprezado, pouco olhado?
Joaquim, por que você vive assim:
Desconfiado, oprimido, calado?

E assim, não têm respostas Joaquim
Como tantos outros afins.
E assim, não têm respostas Joaquim
Tão pouco, tantos outros Joaquins.
Assis Silva
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O bicho-papão

— Não vá mamãe, tenho medo do escuro!
— Não tenha medo, meu amor, mamãe estar aqui!
— Mamãe?
— Sim?
— Como é o bicho-papão?
— Bicho-papão... quem te contou sobre ele?
— Na escola, meus coleguinhas me falaram que ele vem a noite para assustar as crianças que não querem dormir, que são malcriadas e se esconde debaixo da cama. Mamãe, o bicho-papão está debaixo da minha cama?
—Hum! Deixa eu olhar... não, não está!
— Que bom, né mamãe?
— É sim.
— Como é o bicho-papão, mamãe, a senhora já viu ele?
— Venha aqui...deixa eu te contar a história do bicho-papão, quer ouvir?
— Sim, mas ele é muito malvado?
— Não, ele não é malvado. Na verdade é bom...
— Bom! mas ele assusta as crianças...
— Bem...há muito tempo atrás um menino fora abandonado na rua por seus pais. O sonho dele era ter um quarto para poder dormir e assim sair da rua suja e fria. Queria também um irmão para poder brincar ou ao menos um amiguinho. Este menino cresceu morando na rua, mas quando chegava a noite procurava um quarto de alguma criança para poder dormir. Como achava que ninguém gostaria dele, pois nem mesmo os seus pais o quiseram, então, entrava no quarto e se escondia em qualquer lugar: debaixo da cama, dentro do guarda-roupa, pois se fosse visto poderia ser expulso.
— Nossa, não sabia que ele tinha sido abandonado por seus pais, que triste!
— Triste, minha menina! Um certo dia, dentro de uma lixeira, encontrou uma roupa esquisita, mas bem quentinha, ótima para ser usada para dormir, a roupa era peluda, feita com lâ. Gostou dela, embora esquisita, pois não passaria mais frio a noite, e apartir daí passou a usá-la todas as noites.
— Mas então ele não é mau?
— Não, e nem quer assustar ninguém, mas sim, ter um lugar para passar a noite e uma companhia, assim como você, também tem medo de ficar sozinho no escuro.
— Mamãe?
— Estou aqui!
— Se quiser ir, pode ir, não tenho mais medo, pois o bicho-papão vai me fazer companhia, e nem quero saber onde está escondido, vou deixá-lo quieto para poder ter um lugarzinho para dormir. Boa noite, mamãe!
— Bons sonhos, meu anjo!
Assis Silva
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Ir e vir na vida

Seguimos...seguimos.
Mas, melhor que sempre seguir
é ter para onde voltar;
um voltar que é ir,
um ir que é voltar.
Sabemos o quão foi bom até aqui,
em nossa vida,
pelo número de saudades que temos.
Assis Silva
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Resgata-me

Alguém tomou o microfone e balbuciou algo. Todos os presentes viraram-se a procura daquele que falara. O ginásio estava cheio de adolescentes, jovens e alguns adultos que prestavam auxílio para que o evento ocorresse bem. O nome do evento era “resgata-me” e duraria dois dias. A primeira palestra era sobre o tema: “amor de mãe”; e a maioria daqueles que lá estavam tinham problemas com esse tema, devido suas experiências particulares. Aquele que tomou o microfone, disse: “peço atenção a todos, pois começaremos os nossos trabalhos”; fez uma oração, quando terminou, gesticulou com as mãos e um homem de meia idade entrou. Ele estava vestido em um terno cinza, usava gravata preta, era moreno, barba feita, cabelo cortado bem baixinho. Estava visivelmente alterado, irritado (com raiva, no bem da verdade), dirigindo o olhar para alguns responsáveis pelo evento, perguntou: “mas o que é isso aqui mesmo?” — disse com um ar de desprezo — “eu, um advogado renomado, estava pensando que ia falar para um grupo de pessoas inteligentes, graduados, não para um bando de gente pobre e fedorenta...”, foi interrompido com um “AH!” da plateia. Alguns começaram a se contorcer na cadeira, os responsáveis pelo evento não sabiam o que fazer. “Chamem o frei, por favor”, disse uma jovem começando a chorar e bem nervosa. Um alvoroço se iniciou.
A plateia já bem nervosa começou a gritar: “seu louco...tira esse cara daí”. O evento era organizado por uma paróquia e era direcionado a jovens que tinham problemas familiares, com drogas, criminalidade, etc. O palestrante parecia já entender o ambiente em que se encontrava. Ficou alterado: “quer dizer então que fui convidado para dar palestra em um evento de uma igreja...e pior, falar sobre uma coisa que não existe: amor de mãe, aposto que as mães de vocês são todas umas vagabundas, pobres, e por não ter o que fazer da vida, foram fazer sexo por dinheiro...”. Um objeto voou por cima da plateia e atingiu o palestrante que se recompôs o mais breve possível: “agora que estou aqui irei falar o que penso”, disse.
Não foi mais possível harmonia no recinto. Os organizadores tentavam tomar providências, os participantes começaram a chorar, queriam atirar objetos, gritavam e chamavam o palestrante de vagabundo, doido, filho de uma puta, xingavam bastante a mãe dele. E ele insistia, quando tinha oportunidade: “Deus não existe, amor de mãe não existe, aliás, a pior desgraça que fez a mulher que teve vocês, foi justamente ter vocês...”. Uma cadeira atingiu o rosto do palestrante.
“Pelo amor de Deus” disse um jovem em prantos, “chamem o padre, chamem o frei, chamem a irmã”. Mas, o homem de terno insistia em meio a protestos, tomou a bíblia, ergueu-a: “escutem seu bando de imbecis, sou ateu e vou provar a farsa que é este livro aqui, vou provar que Deus não existe, e que a mãe de vocês...”. Objetos e gritos não permitiram mais o discurso. Levantaram-se e começaram a partir para cima do homem de paletó, querendo atingi-lo com socos e pontapés. Os organizadores interviram e procuravam segurar os mais violentos e raivosos. O frei ao qual todos pediam a presença, entrou no salão, tomou o microfone e pediu para retiraram o palestrante. Nesse momento se ouvia somente choros: “mas o que é isso?” — perguntou o frei calmamente, uma música de fundo é ligada — “pensei que vocês fossem mais civilizados”. O frei gozava do respeito de todos. Trajava um hábito marrom, barba crescida e falava mansamente, era um homem sábio. A plateia não parava de chorar, embora mais calmos. Chamou novamente o homem de terno: “esse homem aqui que vos falava é um dos homens mais inteligentes e de fé que conheço. A muitos anos atrás ele pensava em tudo o que falou a vocês...”. Relatou com miudeza e riqueza de detalhes sobre a vida do homem.
Depois da fala do frei todos os revoltados ficaram envergonhados das atitudes. Ainda levou um tempo até que todos ficassem completamente calmos. Nas considerações finais, disse o frei: “Ele é um ator, aliás, um excelente ator”. Passou o microfone para o verdadeiro palestrante, e todos aplaudiram a boa atuação do homem de terno como uma forma de pedido de desculpas.
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CPP