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Finge ou não finge?

Tema: O poeta é um fingidor

 

 

 

Finge ou não finge?

 

Isso é do poeta: ora finge, ora não finge

Escreve conforme sua inspiração o toca

Às vezes diz a verdade do que o impinge

Às vezes camufla um sentimento que sente.

 

Fingir ou não fingir depende do momento

Isso é próprio de quem vive da fantasia

Mas há poetas que expõem seu sentimento

E fazem refletir no texto toda sua estesia.

 

Quando um amor não se consolida

Vem a nostalgia tomar conta do coração

Nessa hora não tem para uns como esconder

Não finge, então é sincero e busca a superação.

 

Há outros, entretanto, orgulhosos e não dizem

Nem para as estrelas que chegou ao fim o amor

Que nutria seu corpo e sua alma, então fingem

Já que não querem expor ao mundo sua dor.

 

Mena Azevedo

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Ode ao Professor!

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Ode ao Professor!

Luz que brilha no coração
Do professor consciente
Que educa com vocação
Tem brilho permanente.

A missão de educar
Não é para todo mundo
O compromisso de formar
É um trabalho profundo.

O mestre é comunicador
Que conduz com pertinácia
Cada assunto desafiador
E dá um não à falácia.

Suas conquistas importantes
Com a sua evolução
Tornam os alunos mais distantes
Colaboradores da renovação.

Num trabalho iluminado
Segue em busca do caminho
Em esforço renovado
Demonstração de carinho.

Coragem em recomeçar
Quer celebrar suas lutas
Sem deixar de exaltar
Sofrimentos e labutas.

Inspirado na vocação
Por ter o caminho aberto
Na mente e no coração
Do aprendiz já liberto.

Abençoa, o’ Senhor!
Todo aquele que trabalha
Com devoção e amor
E não foge da batalha!

Obrigada, o’ meu Deus
Pelo dom de educar
E ensinar aos filhos seus
O quanto é preciso amar!

 Mena Azevedo

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Aprendiz

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Aprendiz

 

Percorre em mim um frio

Quando chegas deslizando

Tuas mãos que causam calafrio

No meu corpo e teus hormônios em bando

Sugam a minha seiva sem brio...

 

Singra, agora, o meu mar em ondas

Revoltas e desvenda os segredos

Desse amor submerso que sondas

Nesse momento sem medo

Pois não precisarás nessa hora de rondas...

 

Concluída a tua façanha

Leva-me nos braços para tua tenda

Cobre-me de cuidados e apanha

Meus pertences e os teus; fecha as fendas

E lá me ensina as tuas manhas...

Mena Azevedo

 

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A Primavera chegou

 Menina, Primavera, Flores

A Primavera chegou

 

Subi a montanha esverdeada pela neblina

E o cansaço deixou todo o meu corpo

Lerdo diante do terreno íngreme lá em cima

E das horas avançadas para o meu retorno.

 

À minha frente, descortinou-se um cenário

Mágico pela exuberância e explosão das flores

Que iam desabrochando e formavam um rosário

De pétalas coloridas evolando seus odores.

 

Ali mesmo relaxei meus pensamentos e músculos

E dormi embalada pela brisa e fosforescência

Das luzes e cores que me enlevava ao lusco-fusco

Que trouxe paz e calma a minha alma tensa.

 

Despertei e fui sacudida pela manhã primaveril

E vieram beijar meu corpo refeito, borboletas

Que bailavam fogosas pelo ar como nunca se viu

Toda a montanha e mata eram só alegria e festa.

 

Mena Azevedo

 

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Estrelas e Pirilampos

Estrelas e Pirilampos

 

Acima, são estrelas reluzentes

Abaixo, são pirilampos voadores

Ambos seres universais, evanescentes

Criados por mãos divinas e cujas cores

Espalham-se pelo céu e pela terra...

 

As estrelas brilham no infinito céu

Enquanto minha alma aflita busca

O seu brilho, no galope do carrossel

Que viaja... viaja insone como andarilho

Para chegar ilesa ao destino certo...

 

Os pirilampos, quais lanternas divinas

Clareiam as noites com suas luzes multicor

E corpo e alma desprendem-se das suas sinas

O corpo sofrido esvai-se em torturante dor

Ao tempo em que a alma sobe ao infinito...

 

Mas como toda matéria é efêmera, fugaz

Busquei na minha cavalgada a estrela

Que, mesmo não sendo eterna, me apraz

Porque por mais tempo eu posso vê-la

E me encantar com sua beleza e brilho.

 

Mena Azevedo

 

 

 

 

 

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Cântico de Libertação

 

Cântico de libertação

 

Depois de um ”longo e tenebroso inverno”

Volto à minha Casa de sonho e fantasia

Para rever companheiros que julgo eternos

E viver encantada no mundo da poesia.

 

Todos passam por dias turbulentos

Uns mais, outros menos: essa é a lei

A fé em Deus que cuida dos seus rebentos

Orienta o espírito para seguir, disso sabemos.

 

“Viva o Senhor e bendito seja o meu Rochedo”

Diz o Cântico de Davi, quando liberto do inimigo

Com amor, eu invoquei a meu Deus sem medo

Clamei pelo meu Senhor e Ele sempre está comigo.

 

Mena Azevedo

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Meu outono

 

Meu outono

 

Vivi muitos outonos

Vi-os chegar e partir

Assim como as folhas

Nascem, caem, morrem...

 

Em cada situação, chorei

De alegria, ao ver a vida

Renovar-se em cada estação

De tédio ao ver os dias cinzentos...

 

Ao chegar um novo outono

Despeço-me das folhas secas

E sinto um pouco de mim

Voar pelos campos gris...

 

E uma saudade no peito

Ao me lembrar das folhas verdes

E do viço da juventude

Indo embora com o tempo...

 

Fica a lembrança a me consolar

De outros outonos que vivi

Sem perceber que o tempo passa

E que o calendário passa sem dó...

 

Mena Azevedo

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Recomeçar sempre

Recomeçar sempre

 

Quando a dor te mostrar aquela cruz

E não mais tiver força pra seguir

Olha pra o céu e vê aquela luz

Que um dia reluziu e vai fluir...

 

Não deixes que o amor seja ilusão

Vai construindo teu céu aqui mesmo

Resignado, com fé no coração

Mas não segues em vão, andando a esmo...

 

O caminho é seguro, deve crer

Porque sempre haverá uma esperança

Não desistas da vida, vem beber

 

Na fonte do amor que é aliança

Entre Deus e o homem para o ser

Que Ele criou para o bem viver.

 

Mena Azevedo

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Outono molhado

Outono molhado

 

As folhas forraram o chão

E, à chegada do outono

A chuva caiu refrescante

Soterrando medos e temores

Impressos nas folhas sem vida.

 

Tantos outonos de outrora

Passados despercebidos no vigor

Da infância que só via o verde

Sem entender o ciclo da vida

Que murchava em cada outono.

 

Simultaneamente à queda das folhas

Que cobriam a terra antes seca

As gotas de água desciam do céu

Fazendo brotar vida em cada canto

Ao tempo em que a juventude esvai.

 

E o outono trouxe a chuva necessária

Que levou as folhas mortas, já secas

Na incansável labuta da natureza

É a vida se renovando em cada estação

É a morte a caminho do renascimento.

 

Mena Azevedo

 

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Bater do coração

Bater do Coração

Solitária no meu mundo, sofria
Com cada batida do meu coração
Eram batidas doridas e o meu dia
Não era mais que simples emoção...

Quisera me envolver em cada hora
Com as batidas do teu coração também
Sofrer contigo as dores e, muito embora
Não te queiras envolver com ninguém...

Mas o meu coração batia e o meu peito
Arfava silenciosamente com batidas sutis
Para acordar o amor que desejava ser refeito
E assim afastar de mim os meus dias hostis...
Mena Azevedo

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As colchas e os ovos

As Colchas e os Ovos - Humor

Causo Humor

Meu tio era um ser humano que agradava a gregos e troianos. Desde a juventude, contavam seus irmãos, ele era dado aos “causos” interessantes, às piadas. Divertia-se e divertia a todos com a sua criatividade, embutida no humor.
Proprietário de uma loja que vendia do tecido ao calçado, dos artigos de armarinho à perfumaria, atendia a todos que ali iam fazer suas compras durante todo o ano. Era o ponto certo para as famílias fazerem o enxoval de suas filhas. Lá se encontravam, também, artigos de cama, mesa e banho, com vendas a prazo e preços reduzidos porque, se algum cliente desse o “cano”, o prejuízo seria menor. Isso ele dizia, procurando tirar de assunto tão sério, alguma graça.
Era costume de as pessoas da zona rural, fazerem suas compras uma vez ao ano. Vinha sempre o casal e, às vezes, traziam as moças, principalmente as que estavam noivas. Hospedavam na sua casa, sempre no mês de junho ou dezembro. Pagavam a conta contraída há um ano atrás e deixava outra, sempre maior, para o ano vindouro. Esse tio era gêmeo do meu pai que procedia da mesma forma. Gêmeos univitelinos, eram como eles diziam, “cara de um, focinho do outro”. Sentiam os mesmos sintomas de doenças que apareciam em um, depois no outro. Casaram-se com duas irmãs e moravam na mesma rua, em casas contíguas.
Os casos de se confundirem os dois aconteciam a todo o momento. Uma vez, meu pai levou para casa um doce de umbu (fruta do umbuzeiro, nativa da caatinga), que na verdade era para meu tio. E muitos casos assim aconteciam, deixando-os satisfeitos, pois gostavam de promover o riso. Mas das piadas, quem gostava mesmo era o meu tio. Sua loja era ponto de bate-papo entre alguns amigos que por lá apareciam à tarde para tomar o famoso cafezinho com “avoador” (biscoito de tapioca escaldada com água e gordura e amassado com ovos). Uma delícia! E esse cafezinho era acompanhado também de piadas que esse anfitrião contava, saídas na hora, sempre envolvendo seus fregueses. Uma delas foi a seguinte: chegou um senhor para comprar colchas e meu tio mandou que a funcionária da loja subisse na escada e mostrasse “as colchas” para o freguês. Este envermelhou-se todo. Outro dia, chegou uma moça para comprar um sapato, mas não sabia o número que calçava. Ele, então, falou: deixe-me ver o pé. E a moça colocou o pé em cima do balcão! Prontamente, ele disse: pare, pare que eu só quero ver o pé! Certa vez, chegou uma senhora da roça para comprar colchas. Gostou muito da mercadoria, mas achou cara. Pechinchou... Pechinchou, mas não houve acordo. Comprou assim mesmo. Depois de alguns dias, meu tio vai à feira livre comprar frutas, verduras, ovos etc... Sabe quem ele encontra lá? A mulher das colchas... Ele se aproxima e pergunta o preço dos ovos. Acha caro e pechincha muito também. Mas D. Maria, com um sorriso que escondia uma vingança, disse categoricamente: Ah! Seu Gerôncio (esse era o nome dele), naquele dia o senhor me pegou nas “colchas”, hoje eu lhe pego nos “ovos”!
E ele contava esses casos, esbanjando felicidade. Eram momentos em que vivia feliz com os amigos e com a família.

Mena Azevedo

 

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Crescimento

 

Crescimento

 

Esses degraus podem ser a sua meta

Todo homem quer subir mais alto

Mas deve saber que a vida se manifesta

Na forma lenta de subir, não em grande salto

Para não se precipitar e cair no abismo...

 

Subir... subir...  Numa leveza chegar ao topo

Não é fácil! Há desânimo, muito cansaço

É preciso subir, ato contínuo! Há um sopro

Imaterial, divino que envolve como um laço

O sonho de atingir o alto com a vontade de vencer...

 

Em cada degrau para subir há uma esperança

De que a vida não acaba ali, está mais adiante

E numa curiosidade própria de uma criança

Chega às nuvens como num voo, confiante

É o infinito que vislumbra, forjando segredos...

 

Seguir é uma condição para achar o caminho

E encontrar a magia da vida em cada escalada

Porque a estagnação atrofia o escaninho

Da alma que precisa subir cada degrau da escada

Algo maior que a natureza humana quer: o crescimento....

 

Mena Azevedo

 

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Gael, o protegido

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Gael, o protegido

 

Foste muito amado desde tua concepção

Papai e mamãe, felizes, viveram contigo

Nove meses de espera e sentiam teu coração

Pulsar em uníssono com o deles nesse amor antigo...

 

Gael, chegaste belo e serás protegido pelo amor

Dos teus pais que sempre te envolverão nos braços

Com a carícia e o afeto do seu coração acolhedor

Para nunca te faltar a doce ventura de muitos abraços...

 

Abençoada és tu, criança, que ora rompes as barreiras

Do líquido amniótico onde nadavas tranquilamente

E despertas para o mundo e trazes notícias alvissareiras:

“Cheguei belo e aos meus pais agradeço generosamente”...

 

Meu bebê, o mundo que vamos te dar será sempre feliz

Onde não haverá dor, nem sofrimento, nem desunião

Feliz, muito feliz serás, anjinho, o nosso Deus nos diz

Pois tudo faremos para te cercar de amor e proteção...

 

Vovó Mena Azevedo

 

 

 

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Boa conduta

Boa conduta

 

Acendamos as lanternas da alma

Com os toques de amor racional

Não escondamos em nossa palma

Instintos que nos fazem tanto mal

Que penetram nas entranhas do ser

Maltratando o corpo que é templo

Do Espírito Santo e Nele quer viver.

 

Não deixemos que o inimigo ataque

Com suas armas invisíveis, poderosas

Tiremos da mente e dos olhos o lacre

E tudo seja luz em noites tenebrosas

Que o mal não domine os sentimentos

Afastemos toda a injúria do pecado

Para transformar os nossos pensamentos.

 

A má conduta traz desgastes ao espírito

Se os erros cometidos atingirem alguém

Os relacionamentos não devem ter atrito

Porque a boa convivência é o que nos sustém

E colabora para que a nossa existência seja

Plena de paz e que nossos passos nos levem

Aos caminhos seguros, onde o amor flameja.

 

Mena Azevedo

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A noite está tão fria, dá-me teu calor - Indriso

A noite está tão fria, dá-me teu calor

 

Amor, lá fora o vento canta

E aqui, neste leito vazio

Preciso do teu calor.

 

Vem aquecer-me nessa noite fria

Para me envolver no calor do teu corpo

E aquecer minh'alma que vive em nostalgia.

 

Quero receber as carícias mais quentes nesta noite.

 

Viveremos, tu e eu, momentos aconchegantes de amor.

 

Mena Azevedo - 23/01/2013

 

 

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Na janela eu te amei...

Na janela eu te amei

 

Subi uma ladeira íngreme

À procura de teu amor

Que um dia me apareceu...

Era um sonho! Estavas linda

Meu coração não suportava

Estar ali a tua frente, absorta

Triste, de costas para as estrelas

Que brilhavam nas alturas...

 

Na janela eu te amei em sonho

Chegar a ti na concretude

De um lugar tão místico

Não me permitia estar a teu lado...

Eras a expressão real no irreal

Mundo da minha estranha fantasia

Que construí em meus sonhos reais

E os transportei para alimentar a estesia...

 

Mena Azevedo

 

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Meu coração flutuou

Proposta 02 de Márcia – Nas ondas do mar, deixei meu coração

 

Meu coração flutuou

 

Para deleitar o espírito, fui ao mar

O encanto dessa maravilha de Deus

Deixou-me anestesiada e pude lá

Contemplar todos os projetos seus.

 

Absorta com as belezas da criação

Mergulhei nas águas claras, cristalinas

E o meu corpo leve vivia toda a emoção

Impulsionado pelas energias divinas.

 

Iam e vinham agitadas as ondas do mar

Estendiam-se na praia como grande véu

E eu em águas buliçosas comecei a chamar

Pelo amor que cobriu meu coração num véu.

 

De repente, uma onda mais forte me leva

Já estava flutuando nas águas do mar

À procura do meu amor, mas só via treva

Assim deixei meu coração nessas águas flutuar.

 

Mena Azevedo

 

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Castração de Zé Pinica

Castração de Zé Pinica


Zé Pinica ficava em cima do barranco onde passava a linha do trem de ferro, vendo a fila de homens que formava o movimento na casa de Terezão. Sons de viola e pandeiro se arrastavam pela cidadezinha, mal as estrelas começavam a piscar. Ouviam-se cantigas plangentes, vindas da bodega do seu Nezinho que se enchia de homens: trabalhadores rurais, pedreiros e alguns comerciários que iam conversar e tomar um gole de cachaça.
Zé Pinica, metido nos seus trajes rotos e sujos não se atrevia a entrar nesse recinto. E pensava com tristeza: “Ali não é lugar pra mim não”!
Quando todos se retiravam, ele descia o barranco depressa e ainda encontrava o dono da bodega fazendo as contas do dia. Desconfiado, metia a cabeça porta adentro e esperava pelo chamado de seu Nezinho, sempre muito atencioso com ele. Era costume o dono da venda dar uns “goles” a Zé para pagar as latas d’água que carregava para sua casa.
Mas nesse dia, dois sujeitos ficaram à espreita e, logo que Zé entrou, eles entraram atrás e ofereceram algumas doses de pinga para ele e logo saíram. Seu Nezinho achou tudo isso muito estranho. Zé bebeu e agradeceu. Trocando as pernas, chegou a sua casa que, na verdade, era um quartinho de porta baixa e uma janela. Morava só. Saía cedinho e abastecia a casa das famílias mais abastadas com água do rio que cortava a cidade. Comia pelas casas por onde andava. Todos gostavam dele. O apelido de Zé Pinica fora dado pelo padrinho que logo notou o piscar incessante dos olhos muito miúdos. Eram assim também os outros irmãos. Isso era um problema genético.
Naquela noite ninguém dormiu pelos arredores da linha de trem de ferro, depois das duas horas da manhã. Gritos com soluços chegavam sufocados às ruas do pequeno lugar, onde também morava a bonitona Manuela, uma rapariga balzaquiana que deixava os homens babando, quando passava faceira e sacudia as ancas, metida num vestido de chita, com flores muito vivas e com um decote muito ousado que deixava os belos seios à mostra. E assim despertava suspiros provocantes e olhares maldosos quando atravessava a pequena rua. Foi com Manuela que Chico se metera e tornara-se seu homem. Saiu da casa de Terezão e passou a morar só. Sua porta fechava-se para qualquer outro garanhão. Ali só entrava o fanfarrão, que vivia à custa do pai, um fazendeiro e comerciante abastado da redondeza, que nem sempre estava disposto a manter as orgias do bom “vivant”.
Os gritos acordaram muita gente, antes que despontasse no céu ainda estrelado, a alvorada que precede o nascer do sol. Eram gritos sofridos que saíam como uivos e chegavam até as casas mais distantes como tristes lamentos.
Quem morava por perto não resistiu aos apelos e saiu de casa para ver o que era. Os berros partiam da casa do Zé, que estava de porta aberta.
Enquanto isso, dois sujeitos chegavam arfantes num esconderijo previamente escolhido por Chicão para se encontrarem.
-Tudo feito, Chicão. Deixamo o cara estendido no chão, nadano em sangue. Jogamo os cuilhão no rio. Hahaha!
-Muito bem! Mas cortou  a genitália toda? Aquele moleque vai aprender agora que com mulher de macho não se mete. Olhe quem!... O Zé!...
-E aí, seu Chicão, quando vai passar a bufunfa pra nóis?
-Não se preocupem. Amanhã vou com meu pai à fazenda separar uns bois pra vender. Vocês serão recompensados logo, logo. Quanto ao cara, procurem saber se deram socorro e se não desconfiam de ninguém. Não era pra matar, não!
Despediram-se e Chicão tomou outro rumo para não levantar suspeitas. Nego e Bastião seguiram pelo rio, do lado oposto à casa da vítima.
Ao entrarem na pequena casa, os moradores dos arredores não queriam acreditar no que viam. Zé estava desmaiado em meio a uma poça de sangue.
-Quem fez isso? Cortaram os “documentos” do Zé! Coitado!...
-Vamos avisar a polícia.
Outros diziam que era melhor avisar ao delegado.
Nessa discussão imprecisa, esqueceram-se de cuidar do pobre homem que, durante sua vida miserável nunca pensara nessas coisas... E mulher de gente rica, então, nem pensar. O sangue que escorria pelo quarto de terra batida foi o mesmo que carimbara os dedos do criminoso na porta do casebre. Lá ficaram suas impressões digitais.
À noite, no Bordel de Terezão não se falava em outro assunto, enquanto na venda do seu Nezinho, Nego e Bastião viravam goles de cachaça, um após o outro e, muito bêbados, falavam meio abobalhados:
- Bastião, tu viu Zé dispois que cortemo os cuilhão dele?
-Num vi inda não, home! Cuma haverá de ver?
- Que mentira boa essa! Chicão ficou puto de raiva e creditou mermo na gente!
-O coitado tão inucente, cara! Tão bobo e sem maliça niuma!... Também dona Manela num ia dar osadia pra ele mermo! Só assim pra nóis ganhar um dinheirim daquela gente...
- A, pois! Um dinheirim sujo, meu veio!...
Nessa mesma noite os dois foram levados à cadeia do lugarejo, onde só despertaram com a chegada do Delegado, que mandou uma ordem de prisão também para Chicão. As impressões digitais foram analisadas e confirmou-se o que todos já sabiam. A pinga que tomaram na venda do seu Nezinho deixara-os bêbados, a ponto de confessarem o crime encomendado.
O desenlace dessa história, caro leitor, você há de presumir. Zé se restabeleceu, mas a mutilação deixou-o incapacitado para suas atividades sexuais e procriadoras. Nego e Bastião ficaram algum tempo presos e Chicão, logo que o pai ficou sabendo, foi à Delegacia e deu ordens ao Delegado para soltá-lo.
-Delegado, vim para o senhor soltar meu filho, ora essa! Meu filho preso por causa de um pobre diabo? Solta! Solta logo!
Era assim nos tempos dos coronéis nesse sertão brabo e é assim hoje também, quando os crimes de colarinho branco permanecem impunes! Um desrespeito à dignidade humana, à vida!...

 

Mena Azevedo

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