QUANDO O QUE PASSOU NÃO PASSA
Quem nunca provou, não sabe o sabor. Quem nunca sofreu, não sabe o que é desfrutar.
Quem nunca sentiu saudade, não viveu de verdade.
Então, que sentimento é este que o chamam de saudade?
Saudade, segundo os dicionários, "é o
sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas."
Ao sentirmos saudade, trazemos à tona momentos vividos que marcaram um instante, ou múltiplos instantes. Por um momento, como um passe de mágica,
aquele vazio é preenchido e nos faz viajar na tênue linha que separa a realidade da ilusão.
Percebi que com o decorrer do tempo a saudade não se acaba, ela se dilui pouco a pouco. Ela não é apagada das nossas lembranças em definitivo. Sempre restará um resquício no fundo da memória, como a borra do café no fundo de uma xícara.
Todavia, há uma diferença, a borra por mais impregnada que esteja, ao lavar o recipiente, desaparecerá, ao passo que a saudade latente estará no âmago da existência, sempre pronta a se manifestar.
Ela, a saudade, fica alojada na memória, inúmeras são as lembranças às quais o cognitivo é capaz de arquivar. São momentos que estavam adormecidos e que podem ser ativados através de um perfume, de uma canção, um filme, um sabor, uma foto, um local e tudo o mais que é inerente aos nossos sentidos.
Entendo que saudade é um patrimônio individual, somente o ser que viveu e soube compartilhar experiências tem o privilégio de ter ativadas as reminiscências, todas as vezes que o coração exigir.
Fosse eu um filósofo, quem dera ser, poderia expressar que saudade é como um copo d'água, por instantes abranda a sede das lembranças que a memória insiste em reviver.
Poeticamente, sem ser poeta, eu defino que saudades são areias inertes no fundo do lago. Até podemos pegar com as mãos, mas elas escorrem por entre os dedos.
Como um ser comum, um mero mortal, eu penso que saudade é um instante que passou, mas que não passa, simples assim.
SAMUEL DE LEONARDO (TUTE)