
PEDRINHO E AS ORELHAS ESCUTAM O MUNDO
Pedrinho tinha doze anos e todas as manhãs caminhava para a escola acompanhado pela avó, Dona Zulmira, uma senhora viúva de cabelos muito brancos e coração acolhedor.
Estudava na Escola Estadual José Veiga e gostava de Matemática, Ciências e, principalmente, das aulas em que podia inventar histórias.
Pedrinho também vivia uma questão muito íntima, que nem sempre conseguia explicar em palavras. Experimentava sentimentos relacionados à incongruência de gênero e, aos poucos, procurava compreender a própria identidade.
Em casa, encontrava um ambiente discreto e cuidadoso. Seu pai, Fernando, e sua mãe, Dora, sabiam que educar também significava aprender sobre aquilo que ainda não compreendiam inteiramente.
Pedrinho tinha bonecas entre seus brinquedos e roupas tradicionalmente associadas tanto a meninos quanto a meninas. A família não transformava essas preferências em assunto permanente. Procurava conduzir o cotidiano com naturalidade, sem interrogatórios nem constrangimentos.
Fernando e Dora buscavam orientação e acompanhamento de profissionais de saúde mental para compreender melhor o que o filho vivenciava e para aprender como acolhê-lo durante seu desenvolvimento.
Dona Zulmira tinha uma sabedoria mais simples. Para ela, antes de qualquer explicação, estava o neto.
- Criança precisa de amor para descobrir o tamanho do mundo … costumava dizer.
Mas havia outra característica de Pedrinho que transformava o recreio num momento desagradável: ele tinha orelhas de abano, bastante proeminentes.
- Lá vem o Orelhudo! - gritavam alguns meninos.
Gonçalo, aluno agitado e provocador, quase sempre comandava as brincadeiras.
Pedrinho fingia não ouvir, mas cada palavra parecia uma pedrinha colocada dentro de sua mochila.
Dora percebeu a tristeza do filho e procurou a direção da escola.
Dona Madalena, a diretora, ouviu atentamente o relato e prometeu tomar providências. Para ela, nenhuma característica física, familiar ou pessoal poderia servir de justificativa para humilhar um estudante.
Naquela semana, visitou todas as salas e leu um comunicado:
COMUNICADO AOS ALUNOS
“Bullying é uma agressão repetida, praticada por palavras, apelidos, ameaças, humilhações ou atitudes destinadas a ferir outra pessoa. Chamar um colega de ‘Orelhudo’ por causa de suas características físicas é bullying. Zombar de alguém por ser baixo, alto, magro, gordo, por sua maneira de falar, vestir-se ou comportar-se também pode constituir uma forma de agressão.
Cada pessoa possui características próprias e merece respeito. Nenhum estudante deve ser humilhado por ser diferente daquilo que outro considera comum.
Nossa escola deve ser um lugar de aprendizagem, amizade e segurança. Empatia significa reconhecer que o outro também sente tristeza, medo, vergonha e alegria.
Os casos de bullying serão apurados pela direção e estarão sujeitos às medidas disciplinares previstas pelas normas escolares, inclusive suspensão.
Pedimos aos alunos de todas as turmas um comportamento humano, solidário e respeitoso. Conviver é também aprender a respeitar as diferenças.”
Durante trinta dias, ninguém incomodou Pedrinho.
Até que Gonçalo voltou a provocá-lo de maneira acintosa.
Dessa vez, a direção aplicou-lhe uma suspensão de uma semana.
Quando retornou, Gonçalo permaneceu tranquilo durante algum tempo, mas, cerca de um mês depois, descobriu outra característica física de Pedrinho para transformar em motivo de zombaria.
As mãos do menino eram pequenas, especialmente quando comparadas às suas orelhas proeminentes.
- Mãozinha de anão! Mãozinha de mulherzinha! -provocou Gonçalo diante dos colegas.
Pedrinho baixou os olhos e fechou as pequenas mãos, como se pudesse escondê-las do mundo.
A expressão “mulherzinha” machucou de maneira especial. Gonçalo não conhecia a intimidade da família de Pedrinho, mas aquela palavra atingiu justamente uma região de sentimentos que o menino ainda estava aprendendo a compreender.
Gonçalo recebeu nova suspensão, dessa vez por duas semanas.
Dona Madalena percebeu que punições, sozinhas, não estavam modificando aquele comportamento.
O comportamento repetido pode criar o hábito … e um hábito ruim precisa ser interrompido antes que machuque ainda mais alguém.
Pedrinho continuou seu acompanhamento psicológico. Ali encontrava um espaço seguro para falar sobre o medo da escola, as provocações dos colegas, seu corpo, suas roupas, seus brinquedos e as dúvidas que carregava.
Fernando e Dora também aprendiam. Compreenderam que proteger o filho não significava decidir antecipadamente quem ele deveria ser, mas oferecer segurança para que pudesse crescer e se conhecer.
O que Pedrinho vivia dentro de casa, entretanto, pertencia à sua intimidade. Nada disso retirava da escola a responsabilidade de protegê-lo contra humilhações e agressões.
Algum tempo depois, Gonçalo voltou a humilhá-lo pela terceira vez, numa brincadeira cruel diante de vários estudantes.
A direção chamou seus pais e, após ouvir testemunhas e o próprio Gonçalo, decidiu pelo seu desligamento da escola, conforme as normas aplicáveis.
Os pais ficaram revoltados no primeiro momento, mas o menino confessou o que havia feito e eles compreenderam a gravidade da situação.
Naquela tarde, Pedrinho voltou para casa de mãos dadas com Dona Zulmira.
… Vó, será que minhas orelhas são mesmo grandes demais?
Ela sorriu, ajeitou-lhe os cabelos e respondeu:
-Talvez sejam grandes o bastante para você aprender a escutar o mundo melhor do que muita gente.
Pedrinho olhou para suas mãos pequenas.
Dona Zulmira apertou uma delas e completou:
- E nunca deixe ninguém escolher por você o tamanho do seu coração.
Pedrinho sorriu.
Suas pequenas mãos eram grandes o suficiente para segurar a mão da avó.
E naquele caminho de volta para casa ele começou a compreender uma coisa que nenhum apelido poderia mudar:
cada criança tem o direito de crescer descobrindo quem é, sem precisar ter medo de ser quem ainda está aprendendo a ser e ter sua cidadania…
Fim
A Domingos
19 de setembro de 2025