A chuva não sabe que és morto.
Por isso insiste em bater no telhado, como se ainda houvesse alguém esperando por ela do lado de dentro.
Eu é que sei.
Eu é que carrego essa notícia como quem carrega água nas mãos: sem conseguir guardá la, sem conseguir deixá la partir.
Há uma poça no fim do quintal, onde teu rosto ainda cabia.
Hoje só cabe o céu.
Cinza. Repetido. Sem pressa de parar de doer.
Escuto a chuva e penso:
é assim que o corpo chora quando os olhos já se cansaram.
O mundo inteiro molhado por um choro que não é meu, mas aprendeu a minha dor e resolveu chover por mim.
Não sei se a saudade tem clima.
Mas sei que sempre chove nos dias em que tento lembrar o som exato da tua voz e não encontro.
Só o barulho da água, caindo, caindo, como se tentasse preencher o formato do teu nome.
Talvez seja isso o luto:
aprender a molhar se por dentro sem que ninguém perceba,
enquanto lá fora a chuva continua caindo,
como quem ainda acredita que pode alcançar quem já não volta.
Comentários
Parabéns pelo texto maravilhoso!!!!
Caro poeta Kleber
Um poema muito bem elaborado.
Parabéns
Abraços