A Chuva e o Luto

 

A chuva não sabe que és morto.

Por isso insiste em bater no telhado, como se ainda houvesse alguém esperando por ela do lado de dentro.

Eu é que sei.

Eu é que carrego essa notícia como quem carrega água nas mãos: sem conseguir guardá la, sem conseguir deixá la partir.

Há uma poça no fim do quintal, onde teu rosto ainda cabia.

Hoje só cabe o céu.

Cinza. Repetido. Sem pressa de parar de doer.

Escuto a chuva e penso:

é assim que o corpo chora quando os olhos já se cansaram.

O mundo inteiro molhado por um choro que não é meu, mas aprendeu a minha dor e resolveu chover por mim.

Não sei se a saudade tem clima.

Mas sei que sempre chove nos dias em que tento lembrar o som exato da tua voz e não encontro.

Só o barulho da água, caindo, caindo, como se tentasse preencher o formato do teu nome.

Talvez seja isso o luto:

aprender a molhar se por dentro sem que ninguém perceba,

enquanto lá fora a chuva continua caindo,

como quem ainda acredita que pode alcançar quem já não volta.

 

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Comentários

This reply was deleted.
CPP