Ela partiu numa terça-feira.
Eu só soube na quarta.
A cidade já sabia.
Os postes de luz sabiam.
Os cães do quarteirão sabiam.
Só eu, pobre de mim,
não sabia.
E isso me define:
ser o último a saber
o que todos já sentiram.
Eu a amei como se ama
uma cidade inimiga:
com medo,
com raiva,
com a certeza
de que um dia
ela me expulsará.
E ela me expulsou.
Não com portas fechadas
mas com portas abertas,
com a luz acesa,
com a cama feita.
A pior expulsão
é aquela que finge
que você ainda pode entrar.
Agora eu caminho
pelas ruas que ela não caminha.
Como nos velhos tempos,
penso eu.
Mas não há velhos tempos.
Há só este agora,
este eterno agora
onde ela não está,
onde eu sou
uma sombra
procurando
a parede
de outra sombra.
Os relógios da cidade
mentem todos.
Um diz que são três.
Outro diz que é tarde demais.
Um terceiro
parou no momento
exato em que ela disse
adeus.
Eu acredito neste relógio.
Este relógio
é o único honesto.
Eu escrevo isto
não para que ela leia.
Ela não lê mais
o que eu escrevo.
Eu escrevo isto
para que a cidade leia.
Para que os postes leiam.
Para que os cães
latam em código
e algum outro homem,
em alguma outra cidade,
em alguma outra terça-feira,
saiba que não está só.
Que a solidão
também é uma língua.
Que a saudade
também é um país.
Que amar e perder
é a única fronteira
que todos atravessamos,
de mãos vazias,
de olhos secos,
de coração
ainda batendo,
ainda batendo,
contra toda a evidência.
Comentários
A poesia tem um alcance fenomenal. Saudaçõe Poéticas.
Lindoooooooooooooooooooooooo!!
Aplausos, Kleber!