Aprendo com a água
a não ter forma própria
e ainda assim
ocupar cada espaço
como se fosse meu.
Fui rio antes de saber meu nome.
Fui chuva antes de entender a sede.
Fui mar antes de conhecer a margem
, e mesmo assim voltei,
sempre voltei,
como quem não sabe partir sem prometer regresso.
A água não chora.
Ela apenas desce.
E nisso me reconheço:
no que escorre sem querer ser lágrima,
no que afunda sem querer ser naufrágio.
Tem água em mim que nunca tocou o chão.
Tem água em mim que já virou nuvem três vezes
e ainda não aprendeu a ficar.
Bebo o mundo aos goles pequenos.
Engulo o sal quando o doce acaba.
Sou o que atravessa pedra
não pela força,
pela paciência que parece fraqueza
e é a coisa mais dura que existe.
Toda sede é uma pergunta
que o corpo faz ao universo.
E a água responde sempre,
mesmo quando demora,
mesmo quando vem tempestade,
mesmo quando machuca ao cair.
Sou feito de água
porque sou feito de tempo,
de travessia,
de tudo que não para
mas que, ao passar,
deixa o leito mais fundo
e o chão mais vivo.
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