AMPULHETA
Saudades da idade média
Quando o tempo escorria visível
Entre dois vidros de silêncio.
Hoje, ele me assalta invisível,
Não cabe nos pulsos,
Nem nas horas que inventaram para mim.
Na cômoda, um bibelô de aço:
Minha ampulheta calada,
Fortaleza fria de uma certeza antiga.
Mas um minuto não é um minuto
Às vezes pesa trinta segundos,
Às vezes dura uma vida inteira.
A areia cai, indiferente,
Grão por grão, sem saber de mim;
E eu, ao contrário, me desfaço a cada instante.
Minha ampulheta não conta meses,
Não reconhece calendários:
Mede o falso tempo que não enferruja.
Na alma, um vento incerto
Cada sopro muda o ritmo,
Cada segundo se perde de si.
Minha mente tropeça nos minutos,
Transforma o certo em vertigem,
E o breve em eternidade turva.
Sem perceber, sigo
Aprendiz de um tempo que não sei contar,
Refém de uma medida que não me mede.
Há uma verdade que pulsa estranha:
Todo tempo exato carrega um desvio,
Toda certeza, um traço de loucura.
E enquanto a areia insiste em cair,
Ouço no fundo do vidro
Um eco de preces sem resposta.
Talvez o tempo real não exista
Apenas o tempo que sentimos
Quando a alma se inclina ao instante.
Fim
A Domingos
Outubro de 2024
Comentários
O tempo...senhor de tantas vidas....
Amei, um momento de reflexão perfeito
Um abraço, estava com saudades de ler-te
Caro amigo, o tempo assola e massacra nosso viver. Imparável e necessário ser vivido. aplausos a tua poética. Abraços
Com certeza o tempo é muito estranho e às vezes até cruel para muitos.
Muito obrigado por seu excelente comentário sempre um incentivo para mim..
Uma honra prezada Poetisa Lilian