Ar,
e já é demais nomeá-lo.
Existe antes do nome,
antes do gesto,
antes do pensamento
que ainda não sabe
que vai pensar.
Dança nas folhas
como quem dança por dentro de si mesmo,
inclina cortinas
com a delicadeza de quem
nunca quis ser visto.
Empurra nuvens
com a mesma força
com que uma palavra empurra o silêncio
para que outro silêncio possa existir.
Mora entre um suspiro e outro
e esse intervalo
é onde a vida hesita
antes de continuar sendo.
Às vezes brisa:
coisa leve feito lembrança
que não pede para ser guardada.
Às vezes vento:
algo que veio de longe
e passou por nós
como se fôssemos parte
do seu destino,
não o contrário.
Às vezes tempestade,
e então o céu diz aquilo
que nenhuma palavra
teria coragem de dizer.
O ar é o invisível em serviço do mundo.
É o peito que respira “ainda”
sem saber que esse ainda
é tudo.
É a vida que entra sem pedir licença
porque nunca precisou de licença ,
ela é a dona.
Quando falta,
a gente aprende.
Aprende o nome errado das coisas,
aprende o peso do que sempre foi leve,
aprende que havia um amor muito antigo
naquilo que nunca olhou.
Ar:
tão simples que assusta,
tão imenso que cabe em nós,
tão perto
que só se descobre
quando a falta dele
finalmente apresenta
o que estava aqui
o tempo todo,
dentro,
sem ter forma de ficar,
mas ficando.
Comentários
Kleber
Um versar reflexivo
Um abraço