Ar

 

Ar,

e já é demais nomeá-lo.

 

Existe antes do nome,

antes do gesto,

antes do pensamento

que ainda não sabe

que vai pensar.

 

Dança nas folhas

como quem dança por dentro de si mesmo,

inclina cortinas

com a delicadeza de quem

nunca quis ser visto.

 

Empurra nuvens

com a mesma força

com que uma palavra empurra o silêncio

para que outro silêncio possa existir.

 

Mora entre um suspiro e outro

e esse intervalo

é onde a vida hesita

antes de continuar sendo.

 

Às vezes brisa:

coisa leve feito lembrança

que não pede para ser guardada.

 

Às vezes vento:

algo que veio de longe

e passou por nós

como se fôssemos parte

do seu destino,

não o contrário.

 

Às vezes tempestade,

e então o céu diz aquilo

que nenhuma palavra

teria coragem de dizer.

 

O ar é o invisível em serviço do mundo.

É o peito que respira “ainda”

sem saber que esse ainda

é tudo.

 

É a vida que entra sem pedir licença

porque nunca precisou de licença ,

ela é a dona.

 

Quando falta,

a gente aprende.

 

Aprende o nome errado das coisas,

aprende o peso do que sempre foi leve,

aprende que havia um amor muito antigo

naquilo que nunca olhou.

 

Ar:

tão simples que assusta,

tão imenso que cabe em nós,

tão perto

que só se descobre

quando a falta dele

finalmente apresenta

o que estava aqui

o tempo todo,

dentro,

sem ter forma de ficar,

mas ficando.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Kleber 

    Um versar reflexivo 

    Um abraço 

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