Construí com as mãos o que as mãos não guardam
parede por parede, grão por grão de tempo,
erguendo o que o mar, paciente, já aguardava
para desfazer com sua língua lenta.
Havia uma janela voltada para dentro.
Não para o horizonte , para aquela coisa
que não tem nome ainda, mas existe
como existe o silêncio entre duas ondas.
Morei ali. Fui dono de uma casa
feita da mesma substância das lágrimas.
Tudo reluzia , e esse brilho me assustava,
porque era belo demais para durar.
Sou o que dissolve e o que persiste.
Sou o sal que foi pedra e virou mar.
Havia em mim um castelo. Havia um reino.
Havia a necessidade urgente de ser real.
A maré não perguntou se eu estava pronto.
Veio com a indiferença das coisas verdadeiras.
E eu, que aprendi a amar a própria forma,
aprendi também a amar o que se desfaz.
Resto agora como gosto na água
presente em tudo, visível em nada,
sabendo que fui sólido uma vez
e que isso, talvez, já seja suficiente.
Comentários
Kleber
Um.versar com um.modo diferente e com uma bagagem poética genuína e única
Um abraço
Beleza sua poética. Li e gostei. Abraços carinhosos