Castelo de Sal

Construí com as mãos o que as mãos não guardam 

parede por parede, grão por grão de tempo,

erguendo o que o mar, paciente, já aguardava

para desfazer com sua língua lenta.

 

Havia uma janela voltada para dentro.

Não para o horizonte , para aquela coisa

que não tem nome ainda, mas existe

como existe o silêncio entre duas ondas.

 

Morei ali. Fui dono de uma casa

feita da mesma substância das lágrimas.

 

Tudo reluzia , e esse brilho me assustava,

porque era belo demais para durar.

 

Sou o que dissolve e o que persiste.

Sou o sal que foi pedra e virou mar.

 

Havia em mim um castelo. Havia um reino.

Havia a necessidade urgente de ser real.

 

A maré não perguntou se eu estava pronto.

Veio com a indiferença das coisas verdadeiras.

 

E eu, que aprendi a amar a própria forma,

aprendi também a amar o que se desfaz.

 

Resto agora como gosto na água 

presente em tudo, visível em nada,

 

sabendo que fui sólido uma vez

e que isso, talvez, já seja suficiente.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Kleber

    Um.versar com um.modo diferente e com uma bagagem poética genuína e única 

    Um abraço 

  • Beleza sua poética. Li e gostei. Abraços carinhosos

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CPP