CORAÇÃO
O coração é a casa onde o sangue escreve memórias em código, sem pedir permissão. Bombeia o invisível: o que se sente antes de ter nome, antes da razão.
Às vezes é câmara escura guarda revelações que a luz não alcança. Outras, é farol numa costa dura, iluminando naufrágios sem esperança.
Dizem que pesa menos de trezentos gramas. Mentira. Carrega o peso de quem amou, de quem partiu, de quem ficou na bruma esperando retornos que o tempo engoliu.
O coração não sabe de fronteiras. Bate no exílio como bateu em casa. É o mesmo ritmo em noites terciárias ou no primeiro amor, quando tudo se abraça.
Não se opera com faca fria. Só se cura com o calor de outro peito, com a mão que segura, com a voz que cria um mundo onde o medo fica estreito.
Também é arquivo: guarda o que se perdeu, o endereço antigo, o rosto que sumiu. Às vezes bate mais forte sem motivo só para lembrar que ainda existe, que ainda sentiu.
E quando a boca cala, quando as mãos desistem, quando os olhos cansam de tanta procura, é ele quem continua: pequeno, íntimo, íntegro, batendo a porta de quem não abre, até que alguém escute a urgência dessa fissura.
E quando finalmente se cansa de ser herói, de ser martírio, de ser cárcere — descobre que era, o tempo todo, a dança: o movimento que nos faz atravessar a noite e encontrar, no outro lado, o próprio amor esperando como quem sabia, desde sempre, que viria.
Kleber Luís Antônio Pinheiro
Comentários
Kleber
uma poesia dessa
foi certeira
sua visão poética é ótima
deu até para lembrar da minha primeira namorada
um abraço