Passei a vida tentando decifrar
o idioma secreto do sentir,
como quem aprende a atravessar
o silêncio antes de cair.
Havia em mim um quarto fechado
onde a tristeza fazia morada,
e um coração desacostumado
de sobreviver à própria estrada.
Descobri que a alma não se explica.
Ela apenas respira devagar.
Às vezes, sangra. Às vezes, fica
tentando em silêncio se curar.
E quanto mais fundo eu descia,
mais via em mim outro horizonte:
uma saudade que não cabia
nem no mar, nem atrás do monte.
Dentro de mim nasciam perguntas
que o vento levava ao pensamento,
e as dores, tão antigas e juntas,
ganhavam voz no esquecimento.
Porque existir é quase um enigma,
uma carta sem remetente,
um corpo carregando estigmas
e um coração excessivamente ardente.
Mas houve um instante , breve luz ,
em que compreendi minha ferida:
há cicatrizes que Deus traduz
para não desistirmos da vida.
Então parei de buscar respostas
nas portas que o mundo fechou.
A alma se revela nas frestas,
nos silêncios que o amor deixou.
Hoje já não tento entender
tudo aquilo que em mim transborda.
Há sentimentos que, para viver,
não precisam de nenhuma forma.
E talvez a alma seja isso:
um infinito querendo abrigo,
uma lágrima beijando o riso,
um adeus caminhando comigo.
Comentários
Mais uma lindeza que leio aqui, Kleber!!
Parabéns e meu abraço