Engrenagem

 

A máquina gira e nada produz,
apenas o ruído de existir.
Cada dente encaixa no seguinte
com a exatidão triste dos dias.

Sou peça, também, nesse mecanismo:
acordo, transmito movimento,
paro à noite sem saber
para onde foi a força que gastei.

O óleo escorre como um pranto seco.
Ninguém chora as máquinas,
elas apenas enferrujam,
devagar, como certas pessoas.

Há um propósito girando ali no centro,
dizem os engenheiros do costume.
Eu só sei que giro,
e o giro é a única resposta que possuo.

Um dia a engrenagem para.
Não com estrondo, com silêncio.
E alguém, lá fora, comenta:

“Funcionava bem, aquela peça.”

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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