Antes dos reinos,
antes das muralhas erguidas pela fome dos homens,
antes do ouro pesar mais que o sangue,
havia já uma força sem dono,
um clarão sem moeda,
um nome lançado ao mundo
como espada de luz:
Gratuito.
Não nasceu em palácios,
nem foi escrito nos selos dos reis.
Veio do invisível,
da parte mais antiga do fogo,
onde os sonhos
ainda falavam a mesma língua.
Seu passo não comprava estradas,
abria.
Sua mão não pedia tronos,
erguia os caídos.
Seu poder não vinha da posse,
mas daquilo que só os imensos compreendem:
dar sem diminuir,
arder sem consumir-se,
vencer sem dominar.
E quando os impérios cobriram a terra
com suas bandeiras e pactos de pedra,
Gratuito caminhou entre eles
como um cometa entre torres.
Os mercadores não puderam medi-lo.
Os generais não puderam dobrá-lo.
Os sábios, cercados de mapas e números,
curvaram a fronte,
pois viram que há forças
que não cabem em conta alguma.
Seu nome era lembrança e profecia:
a fonte corre sem cobrar do sedento,
o sol derrama ouro até sobre os esquecidos,
e o universo não se sustenta pela barganha,
mas pelo que existe para ser dado.
Gratuito avançou por desertos
onde homens vendiam a própria esperança,
e ali plantou silêncio,
e do silêncio nasceram rios.
Entrou em cidades partidas pela ambição
e soprou um vento antigo,
até que os muros aprenderam
que nenhuma pedra é eterna
quando o coração se levanta.
Mas não era manso.
Havia nele a violência sagrada
das tempestades justas.
Quebrava correntes,
derrubava ídolos
com o peso da verdade.
Pois aquilo que é livre por essência
torna-se guerra
contra tudo que tenta aprisionar a luz.
E no fim, quando os séculos passarem
e os nomes dos conquistadores virarem pó,
ainda restará este nome:
Gratuito.
Não como preço.
Não como favor.
Não como sobra.
Mas como destino.
Como princípio.
Como grandeza.
Porque só é eterno
aquilo que pode ser oferecido
sem medo de acabar.
Kleber Luís Antônio Pinheiro
Comentários
Caro poeta Kleber:
Uma construção poética muito bem elaborada.
Parabéns.
Abraços