Invasão

Os marcianos invadiram a Terra, numa noite sem aviso,
sem trombetas, sem foguetes — só um silêncio preciso.
No céu, um risco verde abriu a pele do escuro,
e a lua pareceu menor, com medo do futuro.
Desceram como quem chega atrasado a uma festa,
olhando nossas ruas como quem mede o que resta.
Tinham olhos de vidro, coração de metal,
e uma curiosidade fria, quase cordial.
As antenas tocaram postes, vitrines, jardins,
farejando nossos “porquês”, nossos “agoras”, nossos “fins”.
E nós — tão acostumados a brigar por qualquer chão —
viramos um só susto, uma só respiração.
Tanques tremeram, sirenes morderam a madrugada,
mas o invasor não vinha com raiva, vinha com nada:
nenhuma bandeira erguida, nenhum discurso feroz,
só um mapa de estrelas e a pergunta: “E vocês?”
No rádio, uma voz disse: “É o fim do mundo.”
Mas um menino, na janela, respondeu baixinho, fundo:
“Se vierem pra destruir, a gente vai se defender…
Mas se vierem pra entender, eu posso lhes dizer.”
E foi então que, no meio do caos e da fumaça,
um marciano estendeu a mão — não como ameaça.
Tocou a chuva, provou o sal do nosso mar,
como quem encontra um sonho em forma de lugar.
Talvez invasão seja só medo com outro nome,
talvez o estranho seja um espelho que não some.
E a Terra, por um segundo, sem dono e sem fronteira,
pareceu um coração batendo… na mesma fogueira.

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