LUA GUARDADA NO BOLSO

 

Tenho uma lua no bolso.

 

Não é metáfora 

é aquela luz que alguém deixou

sem querer,

numa tarde que não tinha

nada de especial

e por isso ficou para sempre.

 

Não mostro para ninguém.

 

Não porque seja segredo 

mas porque há coisas

que a gente guarda

não por medo de perder,

mas por medo de que

ao mostrar

deixem de ser

o que são.

 

Carrego ela nos dias cinzas.

 

Nos dias em que o mundo

tem cara de segunda-feira

e a beleza parece ter viajado

sem deixar endereço.

 

Aí eu coloco a mão no bolso 

só isso ,

e sei que existe

algo que não se desfez.

 

Já perdi muita coisa.

Perdi com elegância,

perdi com choro,

perdi sem entender,

perdi e fingi que estava bem

até estar.

 

Mas essa lua

não perdi.

 

Talvez porque nunca foi minha

de verdade.

 

Era emprestada do universo

e o universo

não cobra de volta

o que foi dado com amor.

 

Tem noite que ela esquenta.

Tem noite que ela só ilumina

o suficiente para eu ver

onde estou ,

 

não aonde vou,

só onde estou ,

 

e isso,

às vezes,

é o que basta.

 

Guardo ela aqui.

Do lado esquerdo.

 

Perto do osso que não dobra.

Perto do nome

que não digo em voz alta

mas repito por dentro

como quem reza

sem religião

e acredita

mesmo assim.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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