Tenho uma lua no bolso.
Não é metáfora
é aquela luz que alguém deixou
sem querer,
numa tarde que não tinha
nada de especial
e por isso ficou para sempre.
Não mostro para ninguém.
Não porque seja segredo
mas porque há coisas
que a gente guarda
não por medo de perder,
mas por medo de que
ao mostrar
deixem de ser
o que são.
Carrego ela nos dias cinzas.
Nos dias em que o mundo
tem cara de segunda-feira
e a beleza parece ter viajado
sem deixar endereço.
Aí eu coloco a mão no bolso
só isso ,
e sei que existe
algo que não se desfez.
Já perdi muita coisa.
Perdi com elegância,
perdi com choro,
perdi sem entender,
perdi e fingi que estava bem
até estar.
Mas essa lua
não perdi.
Talvez porque nunca foi minha
de verdade.
Era emprestada do universo
e o universo
não cobra de volta
o que foi dado com amor.
Tem noite que ela esquenta.
Tem noite que ela só ilumina
o suficiente para eu ver
onde estou ,
não aonde vou,
só onde estou ,
e isso,
às vezes,
é o que basta.
Guardo ela aqui.
Do lado esquerdo.
Perto do osso que não dobra.
Perto do nome
que não digo em voz alta
mas repito por dentro
como quem reza
sem religião
e acredita
mesmo assim.
Comentários
Maravilhoso!!!!! Parabéns.
Espetáculo de leitura.