Antes de ser pedra eu fui fogo sem nome,
risco de luz que ninguém pediu para ver.
Atravessei o escuro como quem atravessa
uma dúvida enorme sem pedir licença.
A atmosfera me provou com dentes de ar,
queimou o que era leve, guardou o que era osso.
Não sobrou vaidade, sobrou peso.
E peso, aprendi, é uma forma de ficar.
Caí sem aviso sobre um campo qualquer,
como caem as coisas que a vida não avisa:
o fim de um nome, o silêncio de um telefone,
a mão que solta antes que a gente entenda.
Chamaram-me cratera. Chamaram-me marca.
Ninguém perguntou se eu queria ser lembrado
assim, em forma de buraco,
prova de que alguma coisa passou por aqui e doeu.
Mas há uma pedra no fundo do buraco
que não pede desculpas por ter chegado inteira.
Talvez ficar seja isso:
não o brilho de quando se cai,
mas o silêncio exato de quando se pousa.
Comentários
Parabéns sempre, Kleber!
Parabéns, pela linda reflexão poética"
Muito belo, Kleber.