O Relógio que Desaprendeu

O Relógio que Desaprendeu

O ponteiro, cansado de girar o vazio,

parou num corte exato de tarde e frio.

Não foi mola vencida,

nem erro de função.

Foi um lampejo calmo

de negação.

Desaprendeu a pressa,

olhou quem o prendia,

sentiu pena da carne

que corre todo dia.

Pra que contar segundos,

trancar horas em cofre,

se o tempo é bicho lento

que mastiga e consome?

Agora repousa:

parado, sem laço.

Não serve ao altar,

não serve ao cansaço,

não serve ao atraso.

Virou coisa sem dono,

metal sem patrão,

livre do açoite

do tique e do não.

Os homens passam, cobram a hora,

batem no vidro, exigem o agora.

Mas o relógio, mudo,

não cede, não mente:

vê a poeira pousar

pacientemente.

Aprendeu, por fim,

sozinho e tardio:

o agora não cabe

no tempo medido

por quem chama de vida

o medo do vazio.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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