Havia vento demais naquela tarde.
Um vento antigo, desses
que chegam carregando desertos inteiros
dentro do peito.
E eu fiquei.
Enquanto o mundo corria
para proteger os olhos,
eu deixei que a areia me atravessasse
como quem aceita finalmente
sentir a própria ruína.
Porque existem dores
que não vêm para destruir ,
vêm para arrancar de nós
o excesso de silêncio morto
que aprendemos a chamar de paz.
A tempestade crescia
como um animal sem rosto.
O céu desapareceu primeiro.
Depois as estradas.
Depois meu nome.
Só tua lembrança permaneceu de pé
no meio daquele fim dourado,
como uma vela acesa
dentro de uma igreja abandonada.
E foi estranho descobrir
que até o amor
pode ter a violência do deserto:
ele seca rios inteiros dentro da gente
só para ensinar
o verdadeiro valor da água.
Quando a areia baixou,
eu já não era o mesmo.
Havia menos medo nos meus olhos,
menos orgulho nas minhas mãos,
menos ruído dentro da alma.
A tempestade levou quase tudo ,
mas deixou aquilo
que nem o vento conseguiu arrancar:
a parte de mim
que ainda sabia amar.
Comentários
O poeta demonstra sua força em meio a tempestades. Aplausos, Kleber.
Como não te apladir Kleber?
Maravilhoso!!
Caro poema Kleber
Um sensível poema.
Parabéns
Abraços
Muito lindo, Kleber. Você sempre chega a um ponto fantástico.