Tempestade de Areia

 

Havia vento demais naquela tarde.
Um vento antigo, desses
que chegam carregando desertos inteiros
dentro do peito.

E eu fiquei.

Enquanto o mundo corria
para proteger os olhos,
eu deixei que a areia me atravessasse
como quem aceita finalmente
sentir a própria ruína.

Porque existem dores
que não vêm para destruir ,
vêm para arrancar de nós
o excesso de silêncio morto
que aprendemos a chamar de paz.

A tempestade crescia
como um animal sem rosto.
O céu desapareceu primeiro.
Depois as estradas.
Depois meu nome.

Só tua lembrança permaneceu de pé
no meio daquele fim dourado,
como uma vela acesa
dentro de uma igreja abandonada.

E foi estranho descobrir
que até o amor
pode ter a violência do deserto:
ele seca rios inteiros dentro da gente
só para ensinar
o verdadeiro valor da água.

Quando a areia baixou,
eu já não era o mesmo.

Havia menos medo nos meus olhos,
menos orgulho nas minhas mãos,
menos ruído dentro da alma.

A tempestade levou quase tudo ,
mas deixou aquilo
que nem o vento conseguiu arrancar:

a parte de mim
que ainda sabia amar.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • O poeta demonstra sua força em meio a tempestades. Aplausos, Kleber. 

  • Como não te apladir Kleber?

    Maravilhoso!!

  • Caro poema Kleber

    Um sensível poema.

    Parabéns

    Abraços

  • Gestores

    Muito lindo, Kleber. Você sempre chega a um ponto fantástico.

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