A LENDA DE KRYPTON
Todas as tardes, Mário Lino acomodava-se em sua cadeira especial e deixava o olhar repousar na paisagem que se abria diante da ampla janela. Ao longe, erguia-se a colina coberta por um verde intenso, quase luminoso.
Desde que passara a viver em Krypton — pequena cidade aninhada num vale cercado de montanhas — aquela elevação o intrigava. Os moradores sussurravam a mesma advertência:” ninguém que se aventurara por entre suas árvores voltara a ser visto”. Diziam que era um portal maligno, mas Mário Lino, porém, não se conformava com isso.
Com o tempo, ele notou algo inquietante: em certos fins de tarde, ele juraria ter visto um brilho rosado, fugaz, entre as árvores, seguido de uma silhueta que parecia acenar para ele. E, em dias de neblina, ele escutava um zumbido grave, que parecia vir de lá.
Certa noite, ele teve um sonho: caminhava em direção à colina, e no topo, esperava por ele uma mulher de cabelos ruivos, com os olhos de um tom de esmeralda.
— Eu estou te esperando, Mário — ela sussurrava. — Seu lugar é ao meu lado.
Ele acordou sobressaltado. Olhou pela janela e viu a mesma luz cintilando no alto da elevação. Foi então que decidiu que iria, no dia seguinte, descobrir o que realmente havia além daquele verde impossível. Era quase um chamado o que sentia.
Na manhã seguinte, o céu amanheceu de um azul impassível. Mário Lino calçou suas botas e saiu. A descida da rua foi silenciosa; ninguém mais estava acordado.
Ao chegar à base da colina, o ar cheirava a eletricidade e o zumbido aumentava enquanto ele avançava. Mário Lino deu o primeiro passo na trilha, sentindo-se estranhamente leve.
Ele subiu por vinte minutos. Finalmente, a trilha se abriu em uma clareira no topo. Não havia portal ou máquina, apenas uma formação rochosa e um bosque florido. No centro ele viu a mulher do sonho: cabelos ruivos, olhos verdes. Ela sorriu com uma familiaridade que acalmou seu coração.
— Luna — ele murmurou, o nome vindo de um lugar que não existia em sua memória.
— Mário Lino — ela respondeu, estendendo a mão. — Você demorou.
Ele segurou a mão dela. O toque era quente, familiar.
— O que é este lugar? Por que você está aqui? Os moradores dizem que ninguém volta.
Luna o conduziu até ao centro da clareira.
— Este não é um lugar. É um Tempo. Uma bolha que parou a passagem dos anos. Eu vim de um futuro distante, Mário. Tão distante que o seu tempo é a minha história. Eu encontrei essa "bolha" na linha do tempo e usei para escapar de um mundo que não tinha cores, nem amor.
Ela apontou para um painel de pedra polida, que projetava uma imagem nítida do quarto de Mário Lino, incluindo a cadeira especial.
— Eu te vi. Todas as tardes. Eu te observava, e o mundo simples em que tu vivias, através dessa tela. Teu quarto, tua cidade… tudo o que me restou da beleza. Eu te observava e me apaixonei por tua paz, por seu jeito de olhar a colina... a mim. Eu estava acenando para ti, Mário.
— Eu estava te vendo! — ele exclamou. — Eu via o brilho rosado...
— Era o reflexo do meu vestido! — Luna riu, as lágrimas esmeraldas cintilando. — Eu ansiava tanto que você me visse, que meu sentimento abriu o portal para você. Você é o único que consegue me ver, porque você é o único que eu amo no seu tempo.
Mário Lino levou as mãos ao rosto dela.
— Eu não quero voltar. Eu não aguento mais a lenda. Eu quero a realidade. A nossa realidade.
— Se você não voltar, a história de Krypton a muda. Você desaparece. Sua vida para por aqui — alertou Luna. — Mas você viverá comigo, fora do tempo. Não há como voltarmos ao passado, Mário. A bolha se fecha.
Mário Lino olhou para o vale, pensativo. A neblina ainda cobria as casas. A solidão de observar a colina todos os dias já não lhe fazia sentido.
— Eles dizem que ninguém que veio aqui voltou a ser visto. Que a realidade se dissolve.
— A lenda estava certa — Luna sussurrou, acariciando o rosto dele. — Mas ela se dissolveu para dar lugar à nossa.
Mário Lino sorriu, a leveza que sentiu ao acordar transformando-se em paz.
— Que se dissolva, Luna. Meu tempo acabou. Meu lugar é aqui. Com você.
Ele a beijou com a certeza de quem finalmente encontra seu lar.
No mesmo momento, o zumbido cessou. O chão tremeu. A luz azulada se intensificou, engolindo a clareira. A tela que mostrava o quarto de Mário Lino estalou e se apagou, tornando-se preta.
Lá embaixo, na ampla janela do quarto arejado e silencioso, a poltrona estava vazia. Mas, na mesinha de cabeceira, a página de um livro estava aberta, marcada com um pedaço de tecido de cor rosada.
Em Krypton, o sol finalmente rompeu a neblina. As pessoas nunca mais mencionaram Mário Lino; era como se ele tivesse se mudado no dia em que chegou.
Mas, de vez em quando, ao entardecer, as pessoas juravam ver uma luz azul e um fugaz brilho rosado no topo da colina. E elas evitavam mencioná-lo, para não perturbar o casal que havia escolhido o tempo como lar.
E assim, a lenda se tornou verdade, provando que o amor é a única viagem que não tem volta. É a prova de que, para os corações que amam de verdade, a eternidade não é fantasia, é destino.
Miniconto de Nelson de Medeiros
Comentários
Belíssimo conto prezado Poeta Nelson Medeiros...
Artimanhas animicas nestes extraordinários personagens...A magia enunciada em proveitosos livros... Magia em mágicas cenas .
Mario Lino e Luna abduzidos pela lenda no espaço e solene tempo, este tempo que nos deixa abismados e até incompetentes....
Um Amor condicionado e juntado nas forças " Do Tempo" ...tempo regular e único...
O Amor infinito, Amor eterno, não fantasiado, mas de pertencimento, ao sábio destino.
Mario Lino e Luna , um Amor eterno que já existia antes mesmo destas palavras e texto poético ora escrito.
Abraços fraternos prezado Poeta Nelson Medeiros.
Suas digitais e sabedoria poética neste maravilhoso conto.
Que o verdinho do Planeta do Krupton coabitem com nossas vidas...
Extraordinário conto, caro Nelson.
O tempo e o espaço perdem a sua própria natureza perante o amor.
Meus parabéns e um abraço.