A Menina e a Chuva

 

A menina conversava com a chuva

como quem reconhece

uma antiga parente do silêncio.

 

Ficava na janela

enquanto o mundo corria lá fora, 

carros, vozes, relógios, 

e deixava as gotas pousarem devagar

sobre o vidro,

como dedos tímidos

tentando entrar.

 

Havia uma tristeza bonita nela.

Não dessas que ferem, 

dessas que iluminam por dentro

quem aprendeu cedo

que algumas ausências

crescem junto com o corpo.

 

A chuva parecia entendê-la.

 

Caía mansa sobre os telhados,

escorria pelas plantas do quintal,

desenhava rios pequenos

na rua vazia da tarde,

e a menina olhava tudo

como se cada gota

trouxesse uma palavra

que ninguém mais sabia dizer.

 

Às vezes sorria sozinha.

 

Era um sorriso leve,

quase transparente,

feito de alguém

que descobriu na água

uma forma de permanecer sensível

sem endurecer o coração.

 

Quando a tempestade aumentava,

ela não se escondia.

Abria a janela um pouco mais

e deixava o vento frio entrar,

como quem aceita

que certas dores

precisam atravessar a casa

antes de irem embora.

 

A menina cresceu.

 

Mas até hoje,

em tardes de chuva fina,

alguma coisa nela

ainda encosta na janela

e escuta.

 

Porque existem pessoas

que nunca deixam de ouvir

o que a chuva tenta dizer

ao mundo cansado.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Aplausos a tua esmerada poesia. 🌷👏

  • Adorei!!!! Parabéns, Kleber!

    Abraços 

  • Ave, poeta! Um excelente miniconto que apreciei do começo ao fim. Teu fecho é ouro! Parabéns. 1 ab

  • Incrível, me identifiquei demais com sua poesia

    Belíssima, imagens que saltam aos olhos! 

    Parabéns poeta

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