A menina conversava com a chuva
como quem reconhece
uma antiga parente do silêncio.
Ficava na janela
enquanto o mundo corria lá fora,
carros, vozes, relógios,
e deixava as gotas pousarem devagar
sobre o vidro,
como dedos tímidos
tentando entrar.
Havia uma tristeza bonita nela.
Não dessas que ferem,
dessas que iluminam por dentro
quem aprendeu cedo
que algumas ausências
crescem junto com o corpo.
A chuva parecia entendê-la.
Caía mansa sobre os telhados,
escorria pelas plantas do quintal,
desenhava rios pequenos
na rua vazia da tarde,
e a menina olhava tudo
como se cada gota
trouxesse uma palavra
que ninguém mais sabia dizer.
Às vezes sorria sozinha.
Era um sorriso leve,
quase transparente,
feito de alguém
que descobriu na água
uma forma de permanecer sensível
sem endurecer o coração.
Quando a tempestade aumentava,
ela não se escondia.
Abria a janela um pouco mais
e deixava o vento frio entrar,
como quem aceita
que certas dores
precisam atravessar a casa
antes de irem embora.
A menina cresceu.
Mas até hoje,
em tardes de chuva fina,
alguma coisa nela
ainda encosta na janela
e escuta.
Porque existem pessoas
que nunca deixam de ouvir
o que a chuva tenta dizer
ao mundo cansado.
Comentários
Aplausos a tua esmerada poesia. 🌷👏
Adorei!!!! Parabéns, Kleber!
Abraços
Ave, poeta! Um excelente miniconto que apreciei do começo ao fim. Teu fecho é ouro! Parabéns. 1 ab
Incrível, me identifiquei demais com sua poesia
Belíssima, imagens que saltam aos olhos!
Parabéns poeta