Nenhum tratado previu isto: que o amor, depois de todas as odes, se resumiria à jurisdição do cobertor.
Dormimos sob o mesmo teto, mas ela, por uma lei que desconheço, anexa de madrugada o território inteiro, com a calma das grandes potências e o sono das inocentes.
Fico à margem, de ombro exposto, estudando o frio como quem estuda a letra miúda de um contrato que assinei com entusiasmo e sem os óculos.
Poderia reclamar. Reclamo, às vezes, em voz baixa, para o escuro, que é bom ouvinte e não repete nada.
Mas há uma hora, perto das cinco, em que ela vira, procura sem acordar o meu lado da cama e devolve, num gesto de quem não sabe que devolve, uma ponta de lã quente ao meu pé.
Digo ao teto, que testemunha tudo e não cobra nada: preciso ser preciso, não é o cobertor que ela me dá, é a prova de que, mesmo dormindo, ela mantém a contabilidade do meu frio.
Acho justo. Amor é isso: um roubo cometido durante a noite e uma restituição parcial ao amanhecer, sem recibo, sem pedido de desculpas, com juros que só os tolos e os felizes sabem calcular.
Comentários
Ave, mestre! heheheh! belo retrato do cotidiano! 1 ab