BRINCADEIRA DE RODA
(Miniconto de Nelson de Medeiros)
♪ Terezinha de Jesus de uma queda efoi ao chão... Acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão... O primeiro foi seu pai, o segundo, teu irmão... O terceiro foi aquele que Amelinha deu a mão! ♪
Era o refrão que a turma cantarolava entusiasmada, como se fosse uma ária de Mozart.
A rua do bairro, na pequena cidade do interior, parecia encantada pela presença daquelas crianças que viviam a vida inocentemente — alheias às guerras, aos vilipêndios e à desinteligência dos adultos.
Viviam ali, todas as noites, em um mundo que parecia pertencer a outra dimensão; uma fenda na estrada da mentira, da arrogância e da maldade.
Plínio tinha somente treze anos, mas já carregava em seu íntimo a alma romântica, galante e o discernimento de quem pressente a beleza do amor. Amélia, a seu turno, não ficava atrás; embora partilhasse a mesma idade, guardava no olhar uma maturidade doce.
Naquela noite, Plínio estava quase desmaiando. A cantiga ganhava vida enquanto Amélia — uma linda garota de olhos pretos, trajando um encantador vestidinho amarelo — caminhava tímida em direção à fila de meninos.
Ela inclinou-se para Plínio que, imediatamente e quase sem fôlego, apertou suas mãos. O toque foi um choque de pureza.
— Você quase errou o passo — sussurrou ela, com um sorriso que iluminava mais que os lampiões da rua.
— É que o seu vestido... — ele baixou os olhos para o amarelo vibrante — ele brilha muito. Achei que você fosse uma estrela que caiu na roda.
Se eles entendessem de reencarnações, diriam que já tinham vivido uma história de amor em outras vidas; e a cena ali se repetia, face às palavras que lhes saíram das bocas.
Muitas luas depois, na mesma rua que outrora fora o palco de suas rodas, o silêncio da noite parecia guardar um segredo. Quem passasse por ali, sob o clarão de luzes, agora de led, poderia jurar ouvir o eco de um riso infantil e o rastro de um vestido amarelo sumindo na bruma.
Plínio e Amélia já não eram mais os meninos de treze anos, nem os jovens da galeria. Eram, agora, a prova viva de que certas mãos, uma vez entrelaçadas em uma fenda do universo, jamais se soltam. O destino, aquele mestre compositor, havia finalmente terminado de escrever a sua melodia. E, desta vez, não havia mais quedas ao chão; apenas o repouso de quem, após muitas vidas, finalmente chegara em casa.
Talvez seja isso o amor puro, aquele amor que transcende: uma memória que jamais se apaga da alma. Ela não está no tempo, nem nas ruas que mudam de nome, nem nas luzes que se modernizam. Ele mora nas mãos que se reconhecem antes mesmo de se tocarem.
Se almas gêmeas existem, talvez sejam apenas isso: duas vontades antigas atravessando o mundo, como se obedecessem a um destino maior — traçado, quem sabe, por Deus.
Comentários
Que belo conto, Nelson! Por uns instantes voltei a velhos tempos....
Parabéns. Um carinhoso abraço
“Talvez seja isso o amor puro, aquele amor que transcende: uma memória que jamais se apaga da alma”
Realmente é uma maravilha o conto todo. Quando lia, ia relembrando dias felizes da minha vida: aquela rua, aquele pequeno jardim onde aconteciam as mesmas coisas que aparecem na sua linda história. Esses amores, essas ilusões, essa ingenuidade são a nossa razão de ser, que talvez algum Deus benevolente quis nos entregar para que nunca esquecêssemos o nosso verdadeiro nome, a nossa verdadeira origem, e onde é que devemos tornar.
Meus parabéns e um abraço.
Maravilhoso microconto , com esta maravilhosa lembrança desta cantiga de roda, praticamente um patrimônio cultural.
E seus personagens principais Plínio e Amélia
Acredito piamente que ali o Amor se repetia entre eles.
Suas tramas são especiais e claro o destino escreveu está história, um Amor, cremos que se repete outra vez.
Almas gêmeas atravessando os espaços no tempo, creio nas bênçãos de Deus.
Um belíssimo momento poético Amigo Poeta Nelson Medeiros...
A canção de roda nos trouxe muita emoção...
Que lindo conto, Nelson. Leitura agradabilissima. Abraços carinhosos
Ave, minha bela menina poeta! A menina poeta, na infância, já teve um vestinho amarelo, vibrante como seus poemas?! bj
UAUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU, QUE LIINDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
APLAUSOS, NELSON
Pois é, Cidcuha! Plinio e Amelia existiram, com outros nomes, só o epilogo é um ppuco do enredo é conto.Obrigado. bj